Membro Honorário

Gabriel Ruiz Pelegrina  


Nascido em Bauru, aos 13 de agosto de 1921, na quadra 7 da Araújo Leite, filho de Dolores Cara  Ruiz e José Ruiz Pelegrina. Concluiu seus estudos primários em 1933, no 1º Grupo Escolar de Bauru, curso este que iniciou em 1929, na Escola Mista Urbana da Vila Antártica, também em nossa cidade. Em 1938, cursou o antigo “Madureza Ginasial” no Ginásio Guedes de Azevedo, onde também cursou os dois primeiros anos do curso de Contador. 26 anos mais tarde, em 1966, cursou o Colegial, em curso supletivo no Ginásio La Sale.  

No campo profissional, embora sua principal atividade tenha sido na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, onde aposentou-se como Oficial de Administração, é interessante destacar que, aos 19 anos de idade, estava residindo na cidade de Três Lagoas (MS), onde exercia a função de redator do jornal “A Gazeta do Comércio”. Vários fatores contribuíram para que voltasse a atenção para o passado histórico de sua cidade natal, sendo um dos principais, os artigos de caráter histórico que lia diariamente no Correio da Noroeste, escritos pelo jornalista José Fernandes.

Em 1944, retornando a Bauru, convidado pelo esportista Hilário Guedes, atuou como auxiliar de redação no jornalzinho Esporte Clube Noroeste e em seguida, atendendo ao convite do jornalista João Pedro Fernandes, foi redator esportivo do Correio da Noroeste.

Passaram-se os anos, e entre participações em órgãos de Imprensa, como o semanário A Verdade, a mini revista Câmera 2, e revista Realce, Pelegrina sempre esteve ligado à vida e à história de Bauru. Com a fundação do Jornal da Cidade, a convite do jornalista Nilson Costa, passou a escrever crônicas dominicais, e em 1975, com o lançamento do suplemento “Bauru Ilustrado”, redigiu, por quase três anos matérias de natureza histórica para aquele órgão.

Entre os muitos cursos mencionados em seu currículo, a palestra sobre Museologia à qual assistiu, ministrada em agosto de 1980, pelo Prof. Vinício Stein Campos, em  Bauru, muito deve ter somado em sua experiência e seus ideais de historiador.

Escrevendo e pesquisando sobre o passado de nossa cidade, e tendo a oportunidade de conviver com pioneiros como Américo Ferreira Leite, J. J. Cardoso Gomes, a família Ponce, Octávio Pinheiro Brisola, a família Bastos, e muitos outros, Gabriel teve o cuidado de recolher grande quantidade de fotos e escritos sobre a cidade, incluindo-se velhas coleções de jornais, que haviam pertencido ao jornalista José Fernandes.

Em 1983, convidado pelo professor Muricy Domingues, com o aval da Irmã Maria Elvira Milani, então reitora da Universidade do Sagrado Coração, fundou, com o seu acervo, um centro de documentos e pesquisa histórica que, para seu enquadramento na organização da Universidade, recebeu o nome de Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica de Bauru e Região.

Com 12 anos de atividade, o Núcleo dispõe de mais de duas mil coleções de jornais, milhares de outras publicações, preciosos acervos, projetos como o “Memória Cultural de Bauru” e graças a convênios com a Câmara Municipal de Bauru, Poder Judiciário e Diocese, abriga toda a documentação histórica relacionada com essas áreas, sendo assim uma inesquecível fonte de consultas e de registros históricos de Bauru e região.

Gabriel Ruiz Pelegrina já teve inúmeros trabalhos publicados, dos quais o que mais o orgulha é Nossa História na Escola, livro didático elaborado em parceria com a professora Terezinha Zanloch.

Ferrovia e Urbanização, o caso de Bauru, sobre os primórdios da cidade e sua evolução com a chegada da estrada de ferro, Imagens do Comércio Antigo, edição SENAC, na qual, juntamente com Luciano Dias Pires, conta a história de nosso comércio e Imprensa – Um poder sempre vigilante, ensaio da história da Imprensa em Bauru, são algumas de suas publicações.

Pelo seu valor, sua dedicação, seus esforços e méritos como museólogo e historiador de nossa cidade, pelo seu brilhante e valioso trabalho de resgatar a memória dos nossos grandes vultos literários, Gabriel Ruiz Pelegrina recebeu o Diploma e o título de Membro Honorário da Academia Bauruense de Letras.


O ÚLTIMO DOS CORONÉIS

 

Edgard Carone, em A República Velha, assim se refere ao vocábulo “Coronel”: “O termo coronel origina-se de patente da Guarda Nacional, concedida ou comprada pelos grandes fazendeiros, comerciantes e industriais locais, espalhando-se a Instituição, praticamente por todos os municípios”.

Em Bauru, por decreto governamental datado de 1911, foi sediada a 46ª Brigada de Infantaria da Guarda Nacional, sob o comando do coronel Nélson Noronha Gustavo, líder do antigo Partido Republicano, o mesmo partido que havia eleito o presidente Mal. Hermes da Fonseca. E prossegue Carone:

 

O uniforme e as insígnias tornaram-se símbolos representativos de privilégios legais. O significado hierárquico define o mandonismo político, reflexo natural das estruturas existentes. A fragilidade dos poderes centrais – estaduais e federais – permite a formação de lideranças dos mais aptos e poderosos. Socialmente o coronel exerce uma série de funções que o fazem temido e obedecido, o que ele deve aos seus dotes pessoais e não ideológicos.

O chefe do clã, título que engloba não só a família que lhe segue e obedece as pegadas mais próximas, mas o cabroal que vive em função de seu prestígio, da sua força, do seu dinheiro.

Aos agregados ele dispensa favores, dá-lhes terras, tira-os da cadeia e ajuda-os quando doentes, em compensação exige fidelidade, serviços, permanência infinita em suas terras, participação nos grupos armados etc. Aos familiares e amigos ele distribui empregos públicos, empresta dinheiro, obtém créditos, protege-os das autoridades policiais e jurídicas, ajuda-os a se livrarem dos compromissos fiscais do Estado etc. É o juiz, pois obrigatoriamente é ouvido a respeito de questões de terras e até, de casos de fugas de moças solteiras. É comerciante e agricultor, porque produz e serve de intermediário entre o produtor e o mercado quando com os maiores recursos financeiros e representando a política econômica fundamental do município.

Assim Edgard Carone classifica o coronel, que nem sempre fazia uso do título, quando sua escolaridade lhe assegurava o título de doutor.

Enfocaremos neste trabalho, como resultado de nossas pesquisas, um dos mais atuantes personagens da história de Bauru e que se constituiu no último dos coronéis que imperou durante muitos anos no cenário político de nossa cidade. Estamos nos referindo ao doutor Eduardo Vergueiro de Lorena.

O Dr. Lorena, como era chamado, chegou a Bauru  no ano de 1912, a fim de preencher a vaga aberta na Comarca recém instalada, por motivo da renúncia do primeiro promotor público, Dr. Benjamim Pinheiro. Todavia, a sua permanência como membro proeminente na área do judiciário foi efêmera, pois afastou-se da função, logo no ano seguinte.

Na época, assumia a liderança política  de Bauru, o cel. Manoel Bento Cruz, que vindo de Penápolis, beneficiou-se com a ausência de alguns coronéis que haviam deixado as atividades políticas na cidade, como o cel. Azarias Ferreira Leite, assassinado em 1910, cel. Nélson Noronha Gustavo e o cel. Francisco Gomes dos Santos.

Deixando a promotoria, Eduardo Vergueiro de Lorena passou a exercer a sua profissão, instalando sua banca de advocacia na cidade.

Sua participação ativa na política somente veio aparecer no ano de 1920, quando foi eleito vereador, tendo como companheiros os edis Antônio Gonçalves Fraga, cel. Gustavo Maciel, Dr. Heitor Ferreira Maria, cap. Joaquim Wenceslau de Souza, Dr. Octávio Pinheiro Brisolla e o agrimensor Virgílio Ermel. Na época, determinava a legislação que o período legislativo fosse de três anos.

Inteligente e culto, Lorena veio a se tornar um dos maiores políticos da nossa história. Sua influência chegava, com muita facilidade, até nos altos escalões do governo estadual.

Para ele, as portas da política se escancararam quando da morte, em janeiro de 1926, do cel. Gustavo Maciel, que foi, como Lorena, um político atuante e de muito prestígio.

Lorena, durante toda a década de 1920, exerceu forte influência sobre os demais políticos bauruenses. Formou dupla com o cap. José Gomes Duarte, que pertencia a uma das mais antigas famílias de pioneiros de Bauru, fazendo-o prefeito por mais de uma vez. Lorena conseguiu ser eleito por quatro vezes, para as legislaturas que se iniciaram em 1920 , 1923, 1926 e finalmente em 1929.

No ano de 1928 foram realizadas, em nível nacional, eleições municipais, tendo em Bauru sido eleitos os vereadores, em número de oito, conforme preceituava a legislação da época. Foi a última eleição da chamada Primeira República, para  compor a Câmara Municipal que legislaria durante o triênio de  1929-30-31.

 

1 – Eduardo Vergueiro de Lorena

2 – Ernesto Monte

3 – Hildebrando Thomaz de Carvalho

4 – João Chrisóstomo Macedo Guimarães

5 – José Gomes Duarte

6 – José Maria Rodrigues Costa

7 – Leôncio Conceição Nery

8 – Oscar Arruda

 

Em seguida, logo nos primeiros dias de janeiro de 1929, a Câmara reuniu-se para escolher o presidente, o vice e o prefeito e seu vice, o que fez nas pessoas de João Chrisóstomo Macedo Guimarães para presidente da Câmara e José Maria Rodrigues Costa para vice; José Gomes Duarte para prefeito e Oscar Arruda para vice.

Decorridos alguns meses, em maio, solicitaram exoneração de vereador e, conseqüentemente, dos cargos, José Maria Rodrigues Costa e Oscar Arruda.

Para preencher os cargos vagos foram eleitos vereadores Frank de Barros Monteiro e João Gonçalves Fraga. Em seguida foram eleitos para vice-presidente da Câmara Leôncio Conceição Nery e para vice-prefeito, Ernesto Monte.

Ainda não havia decorrido um mês dessas acomodações na área administrativa da cidade, quando a população bauruense foi abalada com a notícia da morte trágica do prefeito cap. José Gomes Duarte, em plena rua Batista de Carvalho, fato acontecido no dia 11 de julho de 1929. O assassinato não se configurou em crime político.

Em lugar do vereador José Gomes Duarte foi eleito Eduardo Coutinho, que tomou posse no dia 24 de agosto.

Em 19 de julho, oito dias após a morte de Juquinha, como era mais conhecido  o prefeito morto, a Câmara se reuniu para a escolha, por eleição pelos próprios vereadores, de um novo prefeito.

Instalada a Câmara Municipal em sessão extraordinária, com a presença de seis vereadores, o presidente Macedo Guimarães, depois de comunicar aos demais edis a finalidade da reunião, solicitou ao secretário que procedesse à leitura de um ofício recebido pela Câmara e subscrito pelo secretário do diretório do Partido Republicano Paulista (PRP), redigido nos seguintes termos:

 

“Exmo Sr. Dr. João Chrisóstomo Macedo Guimarães

  DD Presidente da Câmara Municipal de Bauru

 

Saudações,

 

 

Como é de praxe, os diretórios indicarem os nomes dos correligionários sempre que há cargos a preencher e tendo se dado uma vaga de prefeito, com o brutal assassinato do nosso prezado amigo e distinto membro do diretório cap. José Gomes Duarte, venho por meio deste, lembrar a esta ilustre edilidade o nome do digno chefe Dr. Eduardo Vergueiro Lorena para o cargo de Prefeito Municipal. Nenhum mais digno, mais competente e mais amigo de Bauru, que desde que aqui reside, tem demonstrado essa afeição. Como deputado por este distrito tudo tem conseguido para a nossa cidade, e hoje temos, além de dois grupos escolares, mais um em vias de instalação, 12 escolas urbanas, Escola Normal, edificações do Fórum, Horto Florestal, Posto de Higiene, localização de um Batalhão de Polícia, cujo quartel já estava em construção, conseguiu ainda verbas, não pequenas, para estradas de rodagem, pontes e outros, além de influência para a vinda de empresas particulares como a Cia. Antártica Paulista, que grande crescimento dará à nossa cidade.

Como vereador, muito se tem esforçado para o progresso de Bauru, embora seja um posto de sacrifício, acredito pela amizade que tem com a terra, aceitará o cargo que venho indicar.

Esperando que seja bem recebida esta indicação pelos DD edis, sirvo-me da oportunidade para apresentar os meus protestos de estima e consideração.

Eduardo Coutinho, secretário do Diretório Político de Bauru.”

Em seguida realizou-se a eleição, tendo na sua apuração, sido constado que o Dr. Lorena tivera 5 votos e João Chrisóstomo 1.

Em seguida a Câmara aprovou o projeto mudando o nome da rua da Liberdade para o de “Cap. José Gomes Duarte”. Hoje, essa rua leva o nome de Agenor Meira, voluntário bauruense morto em combate durante a Revolução de 1932.

Dali para a frente, o prefeito titular, Dr. Lorena, só aparecia para sancionar leis, quando estas tratassem de assuntos importantes. Percebia-se, claramente, que Lorena fazia questão de não perder o status de “coronel”, aquele que mandava e desmandava.

Entramos no ano de 1930, marco histórico da República brasileira.

Em 1º de março daquele ano realizaram-se eleições para a escolha do presidente da República e vice, concorrendo, pelo Partido Republicano Paulista, Julio de Albuquerque Prestes e Vidal Soares, como vice, pela Aliança Liberal e Partido Democrata, Getúlio Vargas e João Pessoa, o primeiro gaúcho e o último potiguar.

A apuração da eleição considerada fraudulenta apontou como vencedor Júlio Prestes. A 26 de julho do mesmo ano foi assassinado em Recife, o vice de Getúlio, João Pessoa. São Paulo estava dominado por uma oligarquia na qual predominava o coronelismo. Esquematizava-se uma revolta no Rio Grande do Sul, que em Minas Gerais era incentivada por Antonio Carlos de Andrade, visando a derrubada do governo Washington Luiz.

Jornais de Bauru criticaram esse movimento revolucionário e a Câmara Municipal se reuniu, aliás pela última vez, fazendo uso da palavra o deputado e prefeito Eduardo Vergueiro de Lorena, que rapidamente falou sobre a preocupante crise política do país.

Nessa sessão, a Câmara Municipal aprovou a seguinte moção:

“A Câmara Municipal de Bauru, em sessão extraordinária, condenando energicamente o atentado revolucionário, vem protestar a sua inteira solidariedade e respeito ao governo da União e ao Estado, aplaudindo todas as medidas postas em prática para o restabelecimento da ordem.”

O presidente João Chrisóstomo Macedo Guimarães ordenou ao secretário que passasse um telegrama ao senhor presidente da República e ao governador do Estado de São Paulo, hipotecando-lhe inteiro apoio.

A ata foi lançada no livro competente pelo secretário executivo Paulino Jardim Vieira e subscrito apenas pelo vereador João Gonçalves Fraga, uma vez que era de praxe as atas serem lidas, aprovadas e assinadas nas reuniões posteriores, o que não veio a acontecer com aquela.

Consumada a vitória da revolução, correligionários do Partido Democrata e da Aliança Liberal, promoveram uma reunião no recinto da Câmara Municipal, então acéfala, e,  tendo à frente o tenente Cândido Bravo e a presença de Antônio Prado Filho, Joaquim Rodrigues Madureira, Bernardino Coelho, Mário de Almeida e Silva, (Mário Aleixo), Arthur de Morais Goiano, Francisco José Franco, Evaristo Gonçalves da Silva e José Rodrigues Gonçalves, solicitaram e foram atendidos no pedido para que se designasse como governador civil da cidade de Bauru, o major Antonio Gonçalves Fraga, o qual, como prefeito, permaneceu no cargo até o término da Revolução de 1932, quando foi substituído pelo advogado Sebastião Lins.

No mês de outubro de 1930, tentaram por todas as formas evitar o triunfo das forças políticas que pretendiam derrubar o governo federal de Washington Luiz e evitar a posse do presidente eleito Júlio Prestes.

Em Bauru, entre os batalhões que se formaram, um deles levava o nome de Batalhão Vergueiro de Lorena.

Tão logo se reconheceu definitivamente vitoriosa a revolução, esboçou-se em Bauru um órgão que deveria substituir a Câmara Municipal, um conselho consultivo, constituído por elementos que mais se destacavam na sociedade bauruense. Todavia, devido à pouca repercussão, esse conselho não atuou como se pretendia inicialmente.

Em 1932, durante a revolução constitucionalista visando a derrubada da ditadura imposta por Getúlio Vargas, também partiram de Bauru inúmeros batalhões de voluntários, entre eles também o Batalhão Vergueiro de Lorena.

 

 

 

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