Membro Honorário
Gabriel Ruiz Pelegrina
No
campo profissional, embora sua principal atividade tenha sido na Estrada
de Ferro Noroeste do Brasil, onde aposentou-se como Oficial de Administração,
é interessante destacar que, aos 19 anos de idade, estava residindo na
cidade de Três Lagoas (MS), onde exercia a função de redator do jornal
“A Gazeta do Comércio”. Vários fatores contribuíram para que
voltasse a atenção para o passado histórico de sua cidade natal, sendo
um dos principais, os artigos de caráter histórico que lia diariamente
no Correio da Noroeste, escritos
pelo jornalista José Fernandes. Em
1944, retornando a Bauru, convidado pelo esportista Hilário Guedes, atuou
como auxiliar de redação no jornalzinho Esporte
Clube Noroeste e em seguida, atendendo ao convite do jornalista João
Pedro Fernandes, foi redator esportivo do Correio
da Noroeste. Passaram-se
os anos, e entre participações em órgãos de Imprensa, como o semanário
A Verdade, a mini revista Câmera
2, e revista Realce, Pelegrina sempre esteve ligado à vida e à história de
Bauru. Com a fundação do Jornal da
Cidade, a convite do jornalista Nilson Costa, passou a escrever crônicas
dominicais, e em 1975, com o lançamento do suplemento “Bauru
Ilustrado”, redigiu, por quase três anos matérias de natureza histórica
para aquele órgão. Entre
os muitos cursos mencionados em seu currículo, a palestra sobre
Museologia à qual assistiu, ministrada em agosto de 1980, pelo Prof. Vinício
Stein Campos, em Bauru, muito
deve ter somado em sua experiência e seus ideais de historiador. Escrevendo
e pesquisando sobre o passado de nossa cidade, e tendo a oportunidade de
conviver com pioneiros como Américo Ferreira Leite, J. J. Cardoso Gomes,
a família Ponce, Octávio Pinheiro Brisola, a família Bastos, e muitos
outros, Gabriel teve o cuidado de recolher grande quantidade de fotos e
escritos sobre a cidade, incluindo-se velhas coleções de jornais, que
haviam pertencido ao jornalista José Fernandes. Em
1983, convidado pelo professor Muricy Domingues, com o aval da Irmã Maria
Elvira Milani, então reitora da Universidade do Sagrado Coração,
fundou, com o seu acervo, um centro de documentos e pesquisa histórica
que, para seu enquadramento na organização da Universidade, recebeu o
nome de Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica de Bauru e Região. Com
12 anos de atividade, o Núcleo dispõe de mais de duas mil coleções de
jornais, milhares de outras publicações, preciosos acervos, projetos
como o “Memória Cultural de Bauru” e graças a convênios com a Câmara
Municipal de Bauru, Poder Judiciário e Diocese, abriga toda a documentação
histórica relacionada com essas áreas, sendo assim uma inesquecível
fonte de consultas e de registros históricos de Bauru e região. Gabriel
Ruiz Pelegrina já teve inúmeros trabalhos publicados, dos quais o que
mais o orgulha é Nossa História na
Escola, livro didático elaborado em parceria com a professora
Terezinha Zanloch. Ferrovia
e Urbanização, o caso de Bauru, sobre os
primórdios da cidade e sua evolução com a chegada da estrada de ferro, Imagens
do Comércio Antigo, edição SENAC, na qual, juntamente com Luciano
Dias Pires, conta a história de nosso comércio e Imprensa
– Um poder sempre vigilante, ensaio da história da Imprensa em
Bauru, são algumas de suas publicações. Pelo
seu valor, sua dedicação, seus esforços e méritos como museólogo e
historiador de nossa cidade, pelo seu brilhante e valioso trabalho de
resgatar a memória dos nossos grandes vultos literários, Gabriel Ruiz
Pelegrina recebeu o Diploma e o título de Membro Honorário da Academia
Bauruense de Letras. O
ÚLTIMO DOS CORONÉIS Edgard
Carone, em A República Velha,
assim se refere ao vocábulo “Coronel”: “O termo coronel origina-se
de patente da Guarda Nacional, concedida ou comprada pelos grandes
fazendeiros, comerciantes e industriais locais, espalhando-se a Instituição,
praticamente por todos os municípios”. Em
Bauru, por decreto governamental datado de 1911, foi sediada a 46ª
Brigada de Infantaria da Guarda Nacional, sob o comando do coronel Nélson
Noronha Gustavo, líder do antigo Partido Republicano, o mesmo partido que
havia eleito o presidente Mal. Hermes da Fonseca. E prossegue Carone: O
uniforme e as insígnias tornaram-se símbolos representativos de privilégios
legais. O significado hierárquico define o mandonismo político, reflexo
natural das estruturas existentes. A fragilidade dos poderes centrais –
estaduais e federais – permite a formação de lideranças dos mais
aptos e poderosos. Socialmente o coronel exerce uma série de funções
que o fazem temido e obedecido, o que ele deve aos seus dotes pessoais e não
ideológicos. O
chefe do clã, título que engloba não só a família que lhe segue e
obedece as pegadas mais próximas, mas o cabroal que vive em função de
seu prestígio, da sua força, do seu dinheiro. Aos
agregados ele dispensa favores, dá-lhes terras, tira-os da cadeia e
ajuda-os quando doentes, em compensação exige fidelidade, serviços,
permanência infinita em suas terras, participação nos grupos armados
etc. Aos familiares e amigos ele distribui empregos públicos, empresta
dinheiro, obtém créditos, protege-os das autoridades policiais e jurídicas,
ajuda-os a se livrarem dos compromissos fiscais do Estado etc. É o juiz,
pois obrigatoriamente é ouvido a respeito de questões de terras e até,
de casos de fugas de moças solteiras. É comerciante e agricultor, porque
produz e serve de intermediário entre o produtor e o mercado quando com
os maiores recursos financeiros e representando a política econômica
fundamental do município. Assim
Edgard Carone classifica o coronel, que nem sempre fazia uso do título,
quando sua escolaridade lhe assegurava o título de doutor. Enfocaremos
neste trabalho, como resultado de nossas pesquisas, um dos mais atuantes
personagens da história de Bauru e que se constituiu no último dos coronéis
que imperou durante muitos anos no cenário político de nossa cidade.
Estamos nos referindo ao doutor Eduardo Vergueiro de Lorena. O
Dr. Lorena, como era chamado, chegou a Bauru
no ano de 1912, a fim de preencher a vaga aberta na Comarca recém
instalada, por motivo da renúncia do primeiro promotor público, Dr.
Benjamim Pinheiro. Todavia, a sua permanência como membro proeminente na
área do judiciário foi efêmera, pois afastou-se da função, logo no
ano seguinte. Na
época, assumia a liderança política
de Bauru, o cel. Manoel Bento Cruz, que vindo de Penápolis,
beneficiou-se com a ausência de alguns coronéis que haviam deixado as
atividades políticas na cidade, como o cel. Azarias Ferreira Leite,
assassinado em 1910, cel. Nélson Noronha Gustavo e o cel. Francisco Gomes
dos Santos. Deixando
a promotoria, Eduardo Vergueiro de Lorena passou a exercer a sua profissão,
instalando sua banca de advocacia na cidade. Sua
participação ativa na política somente veio aparecer no ano de 1920,
quando foi eleito vereador, tendo como companheiros os edis Antônio Gonçalves
Fraga, cel. Gustavo Maciel, Dr. Heitor Ferreira Maria, cap. Joaquim
Wenceslau de Souza, Dr. Octávio Pinheiro Brisolla e o agrimensor Virgílio
Ermel. Na época, determinava a legislação que o período legislativo
fosse de três anos. Inteligente
e culto, Lorena veio a se tornar um dos maiores políticos da nossa história.
Sua influência chegava, com muita facilidade, até nos altos escalões do
governo estadual. Para
ele, as portas da política se escancararam quando da morte, em janeiro de
1926, do cel. Gustavo Maciel, que foi, como Lorena, um político atuante e
de muito prestígio. Lorena,
durante toda a década de 1920, exerceu forte influência sobre os demais
políticos bauruenses. Formou dupla com o cap. José Gomes Duarte, que
pertencia a uma das mais antigas famílias de pioneiros de Bauru,
fazendo-o prefeito por mais de uma vez. Lorena conseguiu ser eleito por
quatro vezes, para as legislaturas que se iniciaram em 1920 , 1923, 1926 e
finalmente em 1929. No
ano de 1928 foram realizadas, em nível nacional, eleições municipais,
tendo em Bauru sido eleitos os vereadores, em número de oito, conforme
preceituava a legislação da época. Foi a última eleição da chamada
Primeira República, para compor
a Câmara Municipal que legislaria durante o triênio de
1929-30-31. 1
– Eduardo Vergueiro de Lorena 2
– Ernesto Monte 3
– Hildebrando Thomaz de Carvalho 4
– João Chrisóstomo Macedo Guimarães 5
– José Gomes Duarte 6
– José Maria Rodrigues Costa 7
– Leôncio Conceição Nery 8
– Oscar Arruda Em
seguida, logo nos primeiros dias de janeiro de 1929, a Câmara reuniu-se
para escolher o presidente, o vice e o prefeito e seu vice, o que fez nas
pessoas de João Chrisóstomo Macedo Guimarães para presidente da Câmara
e José Maria Rodrigues Costa para vice; José Gomes Duarte para prefeito
e Oscar Arruda para vice. Decorridos
alguns meses, em maio, solicitaram exoneração de vereador e, conseqüentemente,
dos cargos, José Maria Rodrigues Costa e Oscar Arruda. Para
preencher os cargos vagos foram eleitos vereadores Frank de Barros
Monteiro e João Gonçalves Fraga. Em seguida foram eleitos para
vice-presidente da Câmara Leôncio Conceição Nery e para vice-prefeito,
Ernesto Monte. Ainda
não havia decorrido um mês dessas acomodações na área administrativa
da cidade, quando a população bauruense foi abalada com a notícia da
morte trágica do prefeito cap. José Gomes Duarte, em plena rua Batista
de Carvalho, fato acontecido no dia 11 de julho de 1929. O assassinato não
se configurou em crime político. Em
lugar do vereador José Gomes Duarte foi eleito Eduardo Coutinho, que
tomou posse no dia 24 de agosto. Em
19 de julho, oito dias após a morte de Juquinha, como era mais conhecido o prefeito morto, a Câmara se reuniu para a escolha, por
eleição pelos próprios vereadores, de um novo prefeito. Instalada
a Câmara Municipal em sessão extraordinária, com a presença de seis
vereadores, o presidente Macedo Guimarães, depois de comunicar aos demais
edis a finalidade da reunião, solicitou ao secretário que procedesse à
leitura de um ofício recebido pela Câmara e subscrito pelo secretário
do diretório do Partido Republicano Paulista (PRP), redigido nos
seguintes termos: “Exmo
Sr. Dr. João Chrisóstomo Macedo Guimarães
DD Presidente da Câmara Municipal de Bauru Saudações, Como
é de praxe, os diretórios indicarem os nomes dos correligionários
sempre que há cargos a preencher e tendo se dado uma vaga de prefeito,
com o brutal assassinato do nosso prezado amigo e distinto membro do diretório
cap. José Gomes Duarte, venho por meio deste, lembrar a esta ilustre
edilidade o nome do digno chefe Dr. Eduardo Vergueiro Lorena para o cargo
de Prefeito Municipal. Nenhum mais digno, mais competente e mais amigo de
Bauru, que desde que aqui reside, tem demonstrado essa afeição. Como
deputado por este distrito tudo tem conseguido para a nossa cidade, e hoje
temos, além de dois grupos escolares, mais um em vias de instalação, 12
escolas urbanas, Escola Normal, edificações do Fórum, Horto Florestal,
Posto de Higiene, localização de um Batalhão de Polícia, cujo quartel
já estava em construção, conseguiu ainda verbas, não pequenas, para
estradas de rodagem, pontes e outros, além de influência para a vinda de
empresas particulares como a Cia. Antártica Paulista, que grande
crescimento dará à nossa cidade. Como
vereador, muito se tem esforçado para o progresso de Bauru, embora seja
um posto de sacrifício, acredito pela amizade que tem com a terra,
aceitará o cargo que venho indicar. Esperando
que seja bem recebida esta indicação pelos DD edis, sirvo-me da
oportunidade para apresentar os meus protestos de estima e consideração. Eduardo
Coutinho, secretário do Diretório Político de Bauru.” Em
seguida realizou-se a eleição, tendo na sua apuração, sido constado
que o Dr. Lorena tivera 5 votos e João Chrisóstomo 1. Em
seguida a Câmara aprovou o projeto mudando o nome da rua da Liberdade
para o de “Cap. José Gomes Duarte”. Hoje, essa rua leva o nome de
Agenor Meira, voluntário bauruense morto em combate durante a Revolução
de 1932. Dali
para a frente, o prefeito titular, Dr. Lorena, só aparecia para sancionar
leis, quando estas tratassem de assuntos importantes. Percebia-se,
claramente, que Lorena fazia questão de não perder o status de
“coronel”, aquele que mandava e desmandava. Entramos
no ano de 1930, marco histórico da República brasileira. Em
1º de março daquele ano realizaram-se eleições para a escolha do
presidente da República e vice, concorrendo, pelo Partido Republicano
Paulista, Julio de Albuquerque Prestes e Vidal Soares, como vice, pela
Aliança Liberal e Partido Democrata, Getúlio Vargas e João Pessoa, o
primeiro gaúcho e o último potiguar. A
apuração da eleição considerada fraudulenta apontou como vencedor Júlio
Prestes. A 26 de julho do mesmo ano foi assassinado em Recife, o vice de
Getúlio, João Pessoa. São Paulo estava dominado por uma oligarquia na
qual predominava o coronelismo. Esquematizava-se uma revolta no Rio Grande
do Sul, que em Minas Gerais era incentivada por Antonio Carlos de Andrade,
visando a derrubada do governo Washington Luiz. Jornais
de Bauru criticaram esse movimento revolucionário e a Câmara Municipal
se reuniu, aliás pela última vez, fazendo uso da palavra o deputado e
prefeito Eduardo Vergueiro de Lorena, que rapidamente falou sobre a
preocupante crise política do país. Nessa
sessão, a Câmara Municipal aprovou a seguinte moção: “A
Câmara Municipal de Bauru, em sessão extraordinária, condenando
energicamente o atentado revolucionário, vem protestar a sua inteira
solidariedade e respeito ao governo da União e ao Estado, aplaudindo
todas as medidas postas em prática para o restabelecimento da ordem.” O
presidente João Chrisóstomo Macedo Guimarães ordenou ao secretário que
passasse um telegrama ao senhor presidente da República e ao governador
do Estado de São Paulo, hipotecando-lhe inteiro apoio. A
ata foi lançada no livro competente pelo secretário executivo Paulino
Jardim Vieira e subscrito apenas pelo vereador João Gonçalves Fraga, uma
vez que era de praxe as atas serem lidas, aprovadas e assinadas nas reuniões
posteriores, o que não veio a acontecer com aquela. Consumada
a vitória da revolução, correligionários do Partido Democrata e da
Aliança Liberal, promoveram uma reunião no recinto da Câmara Municipal,
então acéfala, e, tendo à
frente o tenente Cândido Bravo e a presença de Antônio Prado Filho,
Joaquim Rodrigues Madureira, Bernardino Coelho, Mário de Almeida e Silva,
(Mário Aleixo), Arthur de Morais Goiano, Francisco José Franco, Evaristo
Gonçalves da Silva e José Rodrigues Gonçalves, solicitaram e foram
atendidos no pedido para que se designasse como governador civil da cidade
de Bauru, o major Antonio Gonçalves Fraga, o qual, como prefeito,
permaneceu no cargo até o término da Revolução de 1932, quando foi
substituído pelo advogado Sebastião Lins. No
mês de outubro de 1930, tentaram por todas as formas evitar o triunfo das
forças políticas que pretendiam derrubar o governo federal de Washington
Luiz e evitar a posse do presidente eleito Júlio Prestes. Em
Bauru, entre os batalhões que se formaram, um deles levava o nome de
Batalhão Vergueiro de Lorena. Tão
logo se reconheceu definitivamente vitoriosa a revolução, esboçou-se em
Bauru um órgão que deveria substituir a Câmara Municipal, um conselho
consultivo, constituído por elementos que mais se destacavam na sociedade
bauruense. Todavia, devido à pouca repercussão, esse conselho não atuou
como se pretendia inicialmente. Em
1932, durante a revolução constitucionalista visando a derrubada da
ditadura imposta por Getúlio Vargas, também partiram de Bauru inúmeros
batalhões de voluntários, entre eles também o Batalhão Vergueiro de
Lorena. |