Membro Efetivo


José Carlos Mendes Brandão
Cadeira -  23
Patrono: José Alves Nunes

OBRAS - SELECIONADAS


A FUNÇÃO DO ESCRITOR

 

Qual é a função do escritor no mundo de hoje? Acusado, ainda, de desconhecer a realidade e isolar-se na sua torre-de-marfim, representa o papel de sempre: é responsável pela vitalidade da linguagem humana e pela imagem do homem de seu tempo. Mas se por um lado vivemos um tempo complexo, de valores controvertidos, primando pela ausência de padrões éticos, por outro, com o desenvolvimento fantástico dos meios de comunicação, transformados em técnicas de controle de massa, a linguagem tornou-se inexpressiva, perdeu a capacidade de influir, de moldar consciências e refletir a condição humana na forma artística.

Não existem mais torres-de-marfim; o mundo é a já velha aldeia global onde o homem perdeu a intimidade, a vivência interior, a faculdade criadora, a autonomia de movimentos; não há alienação possível, a realidade penetra-nos pelos poros, e somos incapazes de modificá-la, vivemos de idéias pré-fabricadas. Somos o rebanho mansamente conduzido pelo canto-de-sereia da sociedade de consumo; fervilham desordens existenciais, como uma prova de que o homem quer resistir, mas a máquina lhe tolhe a visão e ele continua a funcionar como peça imperfeita de uma engrenagem inexorável. Dentro desse condicionamento, a palavra do escritor não conta.

A palavra, no entanto, não se cala. O fato de determinado escritor não se manifestar, não participar politicamente da vida de seu país, por exemplo, não significa alienação; provém de uma postura íntima, de sua condição de trabalhador solitário; ou é reflexo de uma fissura do homem: servo do espírito e do Estado. O alto senso de liberdade do artista coloca-o em oposição ao Estado; já Platão excluía o poeta de sua República. Os seus anseios são sufocados pelo poder estatal e pela necessidade de sobreviver. Mas a sua própria omissão pode ser uma forma de contestação; o próprio fato de existir é uma denúncia, uma espécie de câncer no seio de um organismo programado eletronicamente.

Até que ponto o escritor pode ou deve dar a sua contribuição direta à sociedade? Talvez até o ponto em que não fira a sua individualidade. O seu território é o mundo da cultura simplesmente ou um indefinido mundo interior? A cultura é a ideologia da sociedade, são os cordéis invisíveis que a fazem funcionar; o mundo interior é, embora abstratamente, um grito de liberdade e a negação dessa ideologia. Quando o escritor cria uma obra de arte, dá uma forma à sensibilidade e contesta a cultura, reorganizando-a. A sua linguagem nunca poderá ser a da mera comunicação; deverá ser a da subversão da ordem, pois remete-nos à instauração de outra ordem, de outros valores.

Isto a palavra do escritor, de uma forma ou de outra, representa. A pobreza de sua contribuição deve-se a uma perda de representatividade, como agente forjador da visão humana, que sofreu. A palavra, se ainda não é um instrumento castrado, certamente torna-se dia-a-dia mais estéril. O escritor aparece hoje como um diletante antiquado, quando mesmo tratando-se de simples diletantismo, a sua obra sempre foi o molde do destino do homem. Quem sabe a derrota do homem, com seu destino estreitado na pequenez de compartimentos estanques, esteja ligada à perda de lugar da palavra. Mas enquanto houver sensibilidade, a arte continuará existindo. Ainda que infrutiferamente, o escritor continuará criando.

 

 


O CLARO ENIGMA

 

Kafka não tem explicação, nem precisa, e talvez o fascínio que exerce em nós seja justamente essa impossibilidade de ser explicado, o beco-sem-saída em que nos vemos quando penetramos em sua obra. A grandeza de um escritor consiste em criar uma ficção do universo, inexplicável como o próprio universo. Desatar o nó górdio é o mesmo que cortá-lo: quebra-se o encanto; o nó górdio de uma obra de arte, o seu insondável mistério, nunca é desfeito. Com isso nos rejubilamos: o banal é a morte da arte. Decifra-me ou te devoro, diz a Esfinge. Kafka é a esfinge que vive a devorar-nos, mas, com isso, nos salva. A morte da arte é a morte do homem. A arte é a forma da beleza criada pelo homem; como a beleza, não se explica, não se justifica, mas é a justificação da permanência do homem no labirinto da existência.

As muitas explicações de Kafka devem contribuir para a sensibilidade do enigma de sua visão de trevas, mas não nos trazem a luz. A grande arte de Kafka é ser indevassável, como as trevas. Dizem que a arte é simples e comum aos homens; pois é complexo, incomum, quase diria sobrenatural o sentimento de júbilo que provoca, e a consciência de perda que o acompanha, quando tentamos devassá-lo com a pobreza da nossa compreensão. Convenhamos que a arte de Kafka é simples, seguindo as sendas do seu mundo com a naturalidade das suas personagens. A arte de Kafka é a arte do labirinto. Exata, geométrica, como um labirinto. A cada passo, a possibilidade do Minotauro, o pesadelo. É uma arte povoada de pesadelos, feita de pesadelos. Os deuses se vingaram de Teseu; o homem é um ser vencido, a única saída é a morte. Em O Processo não se sabe qual é a acusação, não se encontra o tribunal; caminha-se numa atmosfera sombria, pesada, até à morte. Ícaro perdeu as asas, não voa para a liberdade; Dédalo morreu; o homem não sonha, busca a salvação satisfazendo os desejos mais naturais; é a personagem de O Castelo, seu destino a que nunca chegará. Não se conhecem todas as passagens do labirinto (e talvez por isso esses romances ficaram inconclusos), como não se conhecem todas as passagens da vida. Sabe-se que o fim é a morte. O meio é o banal, e o pesadelo, a banalidade do pesadelo. Vivemos uma aventura terrível, e basta; não buscamos na leitura a insensibilidade.

O leitor, em geral, quer que a ficção pareça natural, possível. Em Kafka são as personagens que acham natural tudo que lhes acontece. Estamos diante da arte do absurdo, e o paradoxo, que faz crescer o absurdo (e o torna verossímil), é que é escrita com naturalidade. Em O Processo ou O Castelo as personagens se interessam, buscam uma solução, mas não se desesperam. O labirinto de gestos repetidos do cotidiano é absurdo, mas não nos desesperamos. Dizemos que o  nosso labirinto se inscreve na esfera do tangível, do explicável. Será. Não o é de A Metamorfose, a personagem transformada num monstruoso inseto; e não se espanta, preocupa-se apenas com o patrão, que sentirá a sua ausência. A lucidez permanece; Kafka é o artista da lucidez. A fruição da obra de Kafka independe de qualquer interpretação. Depende da lucidez, de sensibilidade estética. E lembremos que Kafka não renovou a literatura nas aparências, nos artifícios, nos experimentos ligüístico-estruturais, mas na essência. É um novo homem que surge em Kafka. Por isso não é caminho para aprendizes, não é o começo da vivência literária. Kafka é o fim.

 


À ESPERA DOS BÁRBAROS

 

Em Ideologia da Sociedade Industrial Marcuse fala das legiões de párias de nossa civilização falida. Os bárbaros proliferam e nossa já pseudocivilização industrial é sufocada e o caos final a espreita.

Há uns vinte anos vi um negro assassinado com os miolos de fora esparramados na calçada. Fiz um poema chocante, porque o tema e as imagens e os motivos todos do poema eram chocantes. Quando publiquei meu segundo livro, o editor precisou excluir um poema e excluiu esse, com a justificativa de que era racista. Não era. Pintei a cena que presenciei, por acaso com um negro. Talvez não por acaso, que os negros são os que mais representam os excluídos da nossa sociedade, os cuspidos nos bueiros do que consideramos uma vida digna. Esse negro seria o símbolo de um dos milhões de párias que um dia tomarão o poder.

Rosa de Luxemburgo falava da falência do imperialismo capitalista e que depois dele somente nos restaria o socialismo ou a selvageria. O socialismo é hipótese mal paga, a tal altura do romance social que vivemos já não se sonha com ela. O que sobra é o caos da barbárie.

Os bárbaros que derrubaram Roma não precisaram de nenhum senso político. Um dia chegará a barbárie e um dia     cairemos.

Estou escrevendo com À Espera dos Bárbaros na cabeça e na alma, talvez o melhor poema do poeta grego Kaváfis. Os governantes  não governam mais, à espera dos bárbaros. Não se fazem mais leis, à espera de que os bárbaros as façam. Ou porque então, e esse então pode ser agora, leis não mais serão necessárias. Mas vem a noite, a noite que sempre vem, e os bárbaros não vêm. Sem os bárbaros, o que será de nós?

Triste a sociedade para a qual somente os bárbaros seriam a solução.

Vivemos um mal disfarçado horror que se expande e é um horror individual, nacional e universal. A solução seria aceitar esse horror, o edifício de nossa civilização treme nas bases, esboroa, o troço está em vias de implodir e nós tampamos o sol com peneiras cor de rosa. Ou reconstruímos, partimos do nada, ou nos sujeitamos a assumir passivamente (assumir?) o nada que se anuncia.

A idéia do horror vem de uma personagem de O Coração das Trevas, de Conrad, ressuscitada por Marlon Brandon em Apocalypse Now. É a explosão da loucura. É uma alucinante imagem de catástrofes. Não existe nenhuma certeza. Ou existe a certeza de que é preciso reconhecer o horror... o horror...

               


BISPO DO ROSÁRIO

 

Dizem que de gênio e louco todo mundo tem um pouco. Talvez seja verdade. Talvez se deixarmos abertos os canais da loucura o gênio desponte, e vice-versa.

E pode ser que isso seja só conversa fiada. Em geral se acredita que todo gênio é louco, mas ninguém acredita que todo louco é gênio.

Em todo caso, os alienistas (belos tempos em que os psiquiatras eram chamados de alienistas, como a ressaltar seu parentesco com os alienados) dizem que os loucos são gênios embutidos. Realizam belos trabalhos com artes plásticas, teatro, música, com resultados surpreendentes.

A arte que não atinge a catarse não é nada. E o indivíduo que não se entrega ao prazer da arte não tem individualidade, é apenas um ingrediente na massa amorfa da sociedade consumista.

Muito melhor enlouquecer. “Sou doido e com todo direito a sê-lo, ouviram?”, escrevia Fernando Pessoa. Falava pela boca de seu alter-ego Álvaro de Campos, engenheiro de profissão, cosmopolita, dilacerado pelas angústias do homem moderno. “Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica”, afirmava. O gênio sabe separar a loucura das atitudes banais do cotidiano.

Fernando Pessoa foi um louco tão grande que não cabia dentro dele mesmo e se extravasava em vários outros-eus. Shakespeare devia ter mais genialidade, disfarçava mais a sua loucura, desdobrando-se nas personagens de suas peças. Disfarçou tanto que até hoje não sabemos quem foi Shakespeare. Como o Conde de Lautréamont, que se incorporou na sua personagem maldita Maldoror de tal forma que o cidadão Isadore Ducasse se apagou da existência.

Beethoven foi louco, Einsten ou Eisenstein foram loucos. Deus foi um louco ao criar a humanidade.

A arte está descobrindo Arthur Bispo do Rosário, que criou obras de genialidade, objetos, textos, estandartes, roupas, assemblages, que são um patrimônio da cultura brasileira e universal. Mas fora isso passou a vida no hospício, infelizmente foi um louco.

Qual é o limite entre a genialidade e a loucura? Os inventores na arte ou na ciência foram loucos porque eram gênios. Bispo do Rosário foi gênio porque era louco. Isso não é muito pouco.

 

 


RESSACA

 

Som de bronze nenhum, o tédio tange.

No mármore e no sangue a aderência.

Mas nós que somos filhos da carência,

que oculta flor de fogo nos responde?

É no outono e o besouro do olvido confrange.

Por que condutos fluem as ondas, onde?

A alameda febril consome a angústia

com o seu ímpeto. Nós, os insolventes,

quem somos? O ar nos modela a forma vã,

e contemplá-la é flauta. Vagas? Entoamos

o cântico do mito constelado, dementes

e mansamente lúcidos na escura e chã

(bruma, nudez) medida que geramos.

Quem somos nos exaure, em ouro e astúcia.

 

 


JORGE LUIS BORGES

 

O espelho à minha frente é coisa muda,

mas de sua mudez ele me fala:

a imagem alheia do outro lado

me contempla longínqua e interrogante,

 

parte de mim, em mim multiplicada,

e posta fora do que sou, textura

de outra pessoa, de outro sonho e forma

No largo nono de um deus tranqüilo

 

a voz se cala e deixa que o cristal

a memória de um vago ser recrie.

ilusória assim como qualquer cifra.

Existimos, inúteis, refletidos.

Um teatro de sombras, sigiloso:

o que somos, em nosso alto crepúsculo.

 

 

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