Membro Efetivo
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OBRA - SELECIONADA |
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A
MOLECADA DA CUSSY JÚNIOR Aqueles
que moraram na Cussy Júnior, quadras 5, 6, 7, 8 e 9, nos anos 40, hão
de se recordar dos momentos que vamos narrar. Momentos esses que
buscaremos em nossa memória. Lembram-se
do futebol de rua com “bolas de meia”? De montar “cabanas” com
os galhos das árvores podadas pela Prefeitura? Dos jogos de
“búrica” naquele chão de terra? Dos piões que “rodávamos”,
que “caçávamos” ou jogávamos “bata”? Brincar de “salva”
também fazia parte de nossas atividades, além de olhar para as meninas
bonitas da rua. Hoje empina-se pipa, no nosso tempo era o “papagaio”
(principalmente o “maranhão”). Lembram-se do jogo de “bafa”? Eu
morava na casa 7-16 da Cussy Júnior, vizinho por um lado dos irmãos
Martinez Molina e, pelo outro, da Miriam Delmont. Em frente ficava a
casa dos Galesso Machado. Como
jogávamos futebol com bola de meia? Os melhores produtores de bolas
eram os Molina, principalmente o “Falito”, que chegava e ia formando
os times que jogavam no meio da rua. Os gols eram feitos com duas pedras
ou pedaços de madeira. O número de jogadores variava, três até cinco
em cada time, jogando com goleiro ou não. Os gols eram, geralmente,
motivo de intermináveis discussões se haviam acontecido ou não, de
acordo com a precariedade dos instrumentos (pedras e madeiras). Havia
também o jogo de calçada, feito entre duas árvores, tendo como gols a
árvore e a parede da casa. Quantas raladas demos nos ladrilhos das
calçadas e nas paredes! Antigamente
a Prefeitura executava poda (corte) das árvores das ruas de Bauru.
Nós, a “molecada”, esperávamos o momento para a construção das
“cabanas”. As árvores podadas deixavam galhos longos e com toda a
rama. Os funcionários que faziam a poda colocavam o material amontoado
junto à calçada. Nós recolhíamos os galhos e os colocávamos
inclinados e apoiados numa árvore. Ali fazíamos o quarto, a sala onde
comíamos os lanches que trazíamos da cozinha. Quantas atividades não
planejávamos naquelas cabanas e quanto tempo passamos no seu interior?
Às vezes ocorria uma praga de insetos, conhecidos como “maria-fedida”,
cujo cheiro característico e muitas vezes uma coceira, exigiam de nós
banhos completos... Jogar
“búrica” (bolinhas de vidro) era a atividade de uma época: o
verão, normalmente. Existiam as búricas nacionais (com um colorido
verde, azul ou até transparente) e as “americanas”, que tinham
muitas cores vivas e eram muito disputadas. Tínhamos três tipos de
jogos: a) o triângulo, no qual as búricas eram colocadas nas
extremidades ou no seu interior. Cada jogador, por sorteio, lançava sua
búrica de uma distância determinada, podendo tirar uma búrica do
triângulo ou chegar o mais próximo possível. Em seguida, por
seqüência, as búricas eram tiradas do triângulo e colocadas no bolso
do jogador. Perdia-se e ganhava-se; b) as birolas eram buracos, que
feitos no chão de terra, geralmente com uma latinha, podendo ser birola
em ordem (até 6 ou 8) ou desordenadamente sobre o chão. Os jogadores
tinham de tirar o ponto (mais próximo) e fazer a ordem de jogada. Havia
um prêmio (geralmente uma búrica) ganho pelo que terminasse as birolas
em primeiro lugar. Tanto no jogo de triângulo ou de birola, usava-se o
“palmo” antes de fazer o lançamento da búrica. Havia também c) a
mata-mata, que era no sentido de “matar” a búrica do outro e ficar
com ela. Participar
dos jogos de piões exigia habilidades. Primeiro, escolhendo
equipamentos mais sofisticados como os feitos de madeira mais nobre
(cedro, mogno), com ponteiras de latão, ao contrário dos comuns, de
peroba e ponteiras de prego. O cadarço podia ser de algodão comum ou
de um trançado especial. Por outro lado, as habilidades eram no enrolar
o cadarço no pião, fazer o lançamento no chão ou “caçá-lo” no
chão ou no ar (pegar o pião no centro da palma da mão, girando).
Jogávamos o “círculo”, em cujo interior eram colocados piões que
seriam “arrancados” pelos jogadores: se o pião do jogador ficasse
dentro do círculo (no arremesso) passaria a fazer parte dos troféus
disputados. A “bata” era um jogo de futebol com piões. Formávamos
dois gols e tínhamos uma bola de madeira (a bata), que deveria ser
batida pelo jogador em direção do gol. O jogador rodava o pião
(caçava no chão e no ar) e o arremessava contra a bola. O vencedor
dependia da habilidade e rapidez com que caçava o pião e o batia
contra a “bata” e lógico, fazia o maior número de gols. Brincar
de “salva”. Meninos e meninas. Era diversão depois da “janta”.
Fazíamos dois grupos: o que caçava e o que deveria bater a “salva”
– ponto (geralmente uma árvore ou um portão). Dávamos um tempo
(contando) e o grupo da “salva” se espalhava. O que era preso
deveria ser salvo por um dos do grupo e os “caçadores” procuravam
defender o “ponto”. Os caçadores só venciam se conseguissem
prender todo o outro grupo. Tudo dependia da velocidade em correr e
habilidade no desviar-se do caçador. Hoje
os meninos soltam as pipas. Nós empinávamos os “papagaios”. Pipa
é para os cariocas, como a pandorga para os gaúchos. Era um tal de
arranjar dinheiro para ir à Tipografia Brasil (Tilibra) e comprar o
papel-manteiga e depois na “A Parisiense” para os carretéis de
linha. Bambu arranjávamos acima da rua 15 de novembro, pois para cima
era mato. A cola era a farinha de trigo da cozinha de nossas mães. O
tamanho do “maranhão” (modelo), era medido pelo número de folhas
de papel. Caprichávamos também nas cores e no “cabresto”
(triângulo de linha que servia de apoio no papagaio). Quanto mais linha
(carretéis) dávamos, mais alto subia o papagaio: muitas perdas por
linhas partidas na pressão do vento forte (geralmente em agosto).
Ocorriam combates feitos com linhas de “pó-de-vidro”, aliás muito
perigosas, que resultavam em machucaduras. As
figurinhas dos “mamonas” eram representadas por fotos dos jogadores
de futebol da época, havendo as mais fáceis e as “carimbadas”,
mais difíceis. Um álbum cheio representava uma bola de futebol de
couro (forte ambição dos moleques). Mas para compor os álbuns havia
as trocas de figurinhas ou jogos de “bafa”, nos quais os
“montinhos” eram colocados com as figuras para baixo e eram virados
com um movimento da palma da mão, em concha. Essas
foram as atividades da molecada da Cussy Júnior, os Arrages, os
Machados, os Martinez Molina, os Ribas, os Santinhos, os Noronhas, que
as aproveitaram com toda intensidade. É
bom e faz lembrar.
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