Membro Efetivo


Muricy Domingues
Cadeira -  20
Patrono: Profa. Ir. Arminda Sbrissia

OBRA - SELECIONADA


A MOLECADA DA CUSSY JÚNIOR

 

 

Aqueles que moraram na Cussy Júnior, quadras 5, 6, 7, 8 e 9, nos anos 40, hão de se recordar dos momentos que vamos narrar. Momentos esses que buscaremos em nossa memória.

Lembram-se do futebol de rua com “bolas de meia”? De montar “cabanas” com os galhos das árvores podadas pela Prefeitura? Dos jogos de “búrica” naquele chão de terra? Dos piões que “rodávamos”, que “caçávamos” ou jogávamos “bata”? Brincar de “salva” também fazia parte de nossas atividades, além de olhar para as meninas bonitas da rua. Hoje empina-se pipa, no nosso tempo era o “papagaio” (principalmente o “maranhão”). Lembram-se do jogo de “bafa”?

Eu morava na casa 7-16 da Cussy Júnior, vizinho por um lado dos irmãos Martinez Molina e, pelo outro, da Miriam Delmont. Em frente ficava a casa dos Galesso Machado.

Como jogávamos futebol com bola de meia? Os melhores produtores de bolas eram os Molina, principalmente o “Falito”, que chegava e ia formando os times que jogavam no meio da rua. Os gols eram feitos com duas pedras ou pedaços de madeira. O número de jogadores variava, três até cinco em cada time, jogando com goleiro ou não. Os gols eram, geralmente, motivo de intermináveis discussões se haviam acontecido ou não, de acordo com a precariedade dos instrumentos (pedras e madeiras). Havia também o jogo de calçada, feito entre duas árvores, tendo como gols a árvore e a parede da casa. Quantas raladas demos nos ladrilhos das calçadas e nas paredes!

Antigamente a Prefeitura executava poda (corte) das árvores das ruas de Bauru. Nós, a “molecada”, esperávamos o momento para a construção das “cabanas”. As árvores podadas deixavam galhos longos e com toda a rama. Os funcionários que faziam a poda colocavam o material amontoado junto à calçada. Nós recolhíamos os galhos e os colocávamos inclinados e apoiados numa árvore. Ali fazíamos o quarto, a sala onde comíamos os lanches que trazíamos da cozinha. Quantas atividades não planejávamos naquelas cabanas e quanto tempo passamos no seu interior? Às vezes ocorria uma praga de insetos, conhecidos como “maria-fedida”, cujo cheiro característico e muitas vezes uma coceira, exigiam de nós banhos completos...

Jogar “búrica” (bolinhas de vidro) era a atividade de uma época: o verão, normalmente. Existiam as búricas nacionais (com um colorido verde, azul ou até transparente) e as “americanas”, que tinham muitas cores vivas e eram muito disputadas. Tínhamos três tipos de jogos: a) o triângulo, no qual as búricas eram colocadas nas extremidades ou no seu interior. Cada jogador, por sorteio, lançava sua búrica de uma distância determinada, podendo tirar uma búrica do triângulo ou chegar o mais próximo possível. Em seguida, por seqüência, as búricas eram tiradas do triângulo e colocadas no bolso do jogador. Perdia-se e ganhava-se; b) as birolas eram buracos, que feitos no chão de terra, geralmente com uma latinha, podendo ser birola em ordem (até 6 ou 8) ou desordenadamente sobre o chão. Os jogadores tinham de tirar o ponto (mais próximo) e fazer a ordem de jogada. Havia um prêmio (geralmente uma búrica) ganho pelo que terminasse as birolas em primeiro lugar. Tanto no jogo de triângulo ou de birola, usava-se o “palmo” antes de fazer o lançamento da búrica. Havia também c) a mata-mata, que era no sentido de “matar” a búrica do outro e ficar com ela.

Participar dos jogos de piões exigia habilidades. Primeiro, escolhendo equipamentos mais sofisticados como os feitos de madeira mais nobre (cedro, mogno), com ponteiras de latão, ao contrário dos comuns, de peroba e ponteiras de prego. O cadarço podia ser de algodão comum ou de um trançado especial. Por outro lado, as habilidades eram no enrolar o cadarço no pião, fazer o lançamento no chão ou “caçá-lo” no chão ou no ar (pegar o pião no centro da palma da mão, girando). Jogávamos o “círculo”, em cujo interior eram colocados piões que seriam “arrancados” pelos jogadores: se o pião do jogador ficasse dentro do círculo (no arremesso) passaria a fazer parte dos troféus disputados. A “bata” era um jogo de futebol com piões. Formávamos dois gols e tínhamos uma bola de madeira (a bata), que deveria ser batida pelo jogador em direção do gol. O jogador rodava o pião (caçava no chão e no ar) e o arremessava contra a bola. O vencedor dependia da habilidade e rapidez com que caçava o pião e o batia contra a “bata” e lógico, fazia o maior número de gols.

Brincar de “salva”. Meninos e meninas. Era diversão depois da “janta”. Fazíamos dois grupos: o que caçava e o que deveria bater a “salva” – ponto (geralmente uma árvore ou um portão). Dávamos um tempo (contando) e o grupo da “salva” se espalhava. O que era preso deveria ser salvo por um dos do grupo e os “caçadores” procuravam defender o “ponto”. Os caçadores só venciam se conseguissem prender todo o outro grupo. Tudo dependia da velocidade em correr e habilidade no desviar-se do caçador.

Hoje os meninos soltam as pipas. Nós empinávamos os “papagaios”. Pipa é para os cariocas, como a pandorga para os gaúchos. Era um tal de arranjar dinheiro para ir à Tipografia Brasil (Tilibra) e comprar o papel-manteiga e depois na “A Parisiense” para os carretéis de linha. Bambu arranjávamos acima da rua 15 de novembro, pois para cima era mato. A cola era a farinha de trigo da cozinha de nossas mães. O tamanho do “maranhão” (modelo), era medido pelo número de folhas de papel. Caprichávamos também nas cores e no “cabresto” (triângulo de linha que servia de apoio no papagaio). Quanto mais linha (carretéis) dávamos, mais alto subia o papagaio: muitas perdas por linhas partidas na pressão do vento forte (geralmente em agosto). Ocorriam combates feitos com linhas de “pó-de-vidro”, aliás muito perigosas, que resultavam em machucaduras.

As figurinhas dos “mamonas” eram representadas por fotos dos jogadores de futebol da época, havendo as mais fáceis e as “carimbadas”, mais difíceis. Um álbum cheio representava uma bola de futebol de couro (forte ambição dos moleques). Mas para compor os álbuns havia as trocas de figurinhas ou jogos de “bafa”, nos quais os “montinhos” eram colocados com as figuras para baixo e eram virados com um movimento da palma da mão, em concha.

Essas foram as atividades da molecada da Cussy Júnior, os Arrages, os Machados, os Martinez Molina, os Ribas, os Santinhos, os Noronhas, que as aproveitaram com toda intensidade.

É bom e faz lembrar.

 

 

 

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