Membro Efetivo


Josefina de Campos Fraga
Cadeira -  19
Patrono: Antônio de Campos Fraga Neto

OBRA - SELECIONADA


ERA UMA VEZ...

 

 

Andar ligeiro, coração disparado, olhar ansioso.

Para uma mulher de 45 anos, infeliz e solitária, aquele era um momento de glória. O momento em que, depois de vinte anos, retornava aos bancos escolares.

Vencido o medo do vestibular..., o cansaço da matrícula..., finalmente, a primeira aula na Faculdade de Direito!

Aos poucos, buscava ela superar a solidão de seus dias, por meio da terapia da ocupação e do trabalho. E, assim, a busca do conhecimento..., as aulas cheias de novidades..., os mestres atenciosos..., os colegas, em sua maioria jovens, agitados e ruidosos..., os intermináveis trabalhos..., e os estudos, passaram a preencher suas horas ociosas.

Restavam, apenas, as madrugadas. As intermináveis madrugadas silenciosas, solitárias e frias...

 

             Solidão...

             Encontro comigo mesma.

             Solidão...

             Momento, de reflexão.

             Solidão...

             Busca de paz interior.

             Solidão...

             Tentativa de reencontro.

             Solidão...

             Só... Saudade... Só...

 

Os meses foram passando. Colegas desistindo, colegas recomeçando.

Numa noite de final de agosto, entrou ela na sala de aula, passeando por entre as carteiras arrumadas, sem sequer imaginar que aquele momento seria único em sua vida. Seria o dia em que encontraria o seu amor maior.

Aquela mulher sofrida, que abrigava mil dores em seu coração, durante toda a sua vida, fora perseguida por uma estranha visão. Um sonho que povoara suas inquietações de adolescente, seus desencontros de mulher mal amada e, finalmente, seus sonhos de mulher só.

“Infantilidades”, pensava ela, “nem devo contar essas bobagens pra ninguém, vão rir de mim... Na adolescência, ainda poderia ser...”

Mas, sonhava, sonhava acordada..., com um homem alto e forte, um cavaleiro errante... “Sir Lancelot” ??? Não. Um homem único, de olhar profundo e mãos quentes, que a arrebataria de seu cotidiano e, qual um imortal, qual um deus pagão, sábio e misterioso, a manteria presa aos seus encantos, protegida e feliz, para sempre...

Chegaria silencioso, nada perguntaria, nem mesmo, o seu nome.

“Bobagem... Estou envelhecendo...”, pensava ela.

Ao que o seu herói respondia: “... aos olhos do amor a beleza se eterniza, não envelhece...”

 

             Ao escrever estes versos,

             timidamente,

             sonho com o teu amor.

                                           

             Sonho discreto, medroso,

             sonho inquieto, apaixonado.

             Sonho com medo

             de ser sonhado.

 

             De repente,

             tua presença me invade.

             Toma conta do meu pensamento,

             faz vibrar todo o meu ser...

 

             A solidão dos meus dias

             talvez seja a culpada

             dessa entrega, desse abandono,

             desse desejo de ser desejada...

                            

E aquela noite de final de agosto, fria, de céu profundo e coalhado de estrelas, foi, realmente, uma noite especial...

Intervalo. Debandada de estudantes. Aquela mulher sofrida terminou suas anotações e continuou sentada em sua carteira, no canto da primeira fila.

De repente, como se uma força incontrolável a atraísse, olhou para trás. Lá, sentado ao fundo da sala, no lado oposto ao seu, estava um novo aluno. Cabeça inclinada, concentrado na escrita, cabelos grisalhos e fartos.

Aquela mulher sofrida, porém altiva e determinada, continuou olhando-o atentamente. Parecia tão alto... Tão forte... Tão solitário...

 

             Encontrar você ali,

             de repente,

             com a mesma precisão

             inexplicável,

             que move os astros

             e que nos colocou

             frente a frente,

             foi, sem dúvida,

             tão lindo quanto

             o desabrochar de uma flor:

             simples, inevitável, misterioso!

                            

Aos poucos, como se pressentisse ser observado, interrompeu ele sua escrita e levantou os olhos. E, quando os seus olhares se cruzaram, uma estranha energia foi transmitida. Os olhos castanhos daquela mulher triste ficaram presos aos profundos olhos esverdeados daquele homem alto.

                                           

            
                
          Aos poucos,

             vou conhecendo o seu olhar.

             Estranho olhar...

             Límpido... Transparente..

             Meigo... Terno... 

             Profundo... Autêntico...

             Amoroso... Vibrante...

             Aos poucos,

             vou conhecendo o seu olhar.

             Estranho olhar...

 

E, para eles, por muitos dias, nada mais aconteceu, além daqueles longos olhares, que os conduziam a planos superiores.

Mas a aproximação foi inevitável. Um dia, sentado na mureta externa do corredor, calça jeans desbotada, balançando a botina sovada, ele, qual felino a atrair sua presa, olhava-a. Ela, hipnotizada, atraída por seu magnetismo intenso, levantou-se e, qual sonâmbula, foi até ele.

Quando suas mãos se tocaram, o momento foi mágico: todas as pessoas que os rodeavam, subitamente, silenciosas se anularam, sumiram. E então, restou apenas aquela mulher, que um dia fora triste, e o misterioso cavaleiro errante dos seus sonhos. Materializado e verdadeiro...

 

             Energia, movimento, músculos.

             Meus olhos

             percorrem todo esse universo

             que é você.

 

             Cabelos de prata.

             Lábios sensuais a atrair.

             Olhos verdes de gato.     

             Barba cerrada, por fazer.

             Tranqüilidade, paz, confiança.

             Meu coração

             sente todo esse universo

             que é você.

             Silencioso, qual felino em guarda.

             Carinhoso, protetor feito anjo.

             Sempre um sorriso maroto    

             a distribuir felicidade.

 

             Amoroso, ardente, possessivo.

             Meu corpo

             anseia por esse universo

             que é você.

 

             Mão na mão.

             Olho no olho.

             Pele na pele.

             Qual nave errante flutuo

             e, pela vida afora,

             qual mendiga de sonhos

             estendo as mãos,

             busco migalhas,

             desse universo que é você.

 

 

 

 

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