Membro Efetivo
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OBRA - SELECIONADA |
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ERA
UMA VEZ... Andar
ligeiro, coração disparado, olhar ansioso. Para
uma mulher de 45 anos, infeliz e solitária, aquele era um momento de glória.
O momento em que, depois de vinte anos, retornava aos bancos escolares. Vencido
o medo do vestibular..., o cansaço da matrícula..., finalmente, a
primeira aula na Faculdade de Direito! Aos
poucos, buscava ela superar a solidão de seus dias, por meio da terapia
da ocupação e do trabalho. E, assim, a busca do conhecimento..., as
aulas cheias de novidades..., os mestres atenciosos..., os colegas, em
sua maioria jovens, agitados e ruidosos..., os intermináveis
trabalhos..., e os estudos, passaram a preencher suas horas ociosas. Restavam,
apenas, as madrugadas. As intermináveis madrugadas silenciosas, solitárias
e frias...
Solidão...
Encontro comigo mesma.
Solidão...
Momento, de reflexão.
Solidão...
Busca de paz interior.
Solidão...
Tentativa de reencontro.
Solidão...
Só... Saudade... Só... Os
meses foram passando. Colegas desistindo, colegas recomeçando. Numa
noite de final de agosto, entrou ela na sala de aula, passeando por
entre as carteiras arrumadas, sem sequer imaginar que aquele momento
seria único em sua vida. Seria o dia em que encontraria o seu amor
maior. Aquela
mulher sofrida, que abrigava mil dores em seu coração, durante toda a
sua vida, fora perseguida por uma estranha visão. Um sonho que povoara
suas inquietações de adolescente, seus desencontros de mulher mal
amada e, finalmente, seus sonhos de mulher só. “Infantilidades”,
pensava ela, “nem devo contar essas bobagens pra ninguém, vão rir de
mim... Na adolescência, ainda poderia ser...” Mas,
sonhava, sonhava acordada..., com um homem alto e forte, um cavaleiro
errante... “Sir Lancelot” ??? Não. Um homem único, de olhar
profundo e mãos quentes, que a arrebataria de seu cotidiano e, qual um
imortal, qual um deus pagão, sábio e misterioso, a manteria presa aos
seus encantos, protegida e feliz, para sempre... Chegaria
silencioso, nada perguntaria, nem mesmo, o seu nome. “Bobagem...
Estou envelhecendo...”, pensava ela. Ao
que o seu herói respondia: “...
aos olhos do amor a beleza se eterniza, não envelhece...”
Ao escrever estes versos,
timidamente,
sonho com o teu amor.
Sonho discreto, medroso,
sonho inquieto, apaixonado.
Sonho com medo
de ser sonhado.
De repente,
tua presença me invade.
Toma conta do meu pensamento,
faz vibrar todo o meu ser...
A solidão dos meus dias
talvez seja a culpada
dessa entrega, desse abandono,
desse desejo de ser desejada...
E
aquela noite de final de agosto, fria, de céu profundo e coalhado de
estrelas, foi, realmente, uma noite especial... Intervalo.
Debandada de estudantes. Aquela mulher sofrida terminou suas anotações
e continuou sentada em sua carteira, no canto da primeira fila. De
repente, como se uma força incontrolável a atraísse, olhou para trás.
Lá, sentado ao fundo da sala, no lado oposto ao seu, estava um novo
aluno. Cabeça inclinada, concentrado na escrita, cabelos grisalhos e
fartos. Aquela
mulher sofrida, porém altiva e determinada, continuou olhando-o
atentamente. Parecia tão alto... Tão forte... Tão solitário...
Encontrar você ali,
de repente,
com a mesma precisão
inexplicável,
que move os astros
e que nos colocou
frente a frente,
foi, sem dúvida,
tão lindo quanto
o desabrochar de uma flor:
simples, inevitável, misterioso!
Aos
poucos, como se pressentisse ser observado, interrompeu ele sua escrita
e levantou os olhos. E, quando os seus olhares se cruzaram, uma estranha
energia foi transmitida. Os olhos castanhos daquela mulher triste
ficaram presos aos profundos olhos esverdeados daquele homem alto.
vou conhecendo o seu olhar.
Estranho olhar...
Límpido... Transparente..
Meigo... Terno...
Profundo... Autêntico...
Amoroso... Vibrante...
Aos poucos,
vou conhecendo o seu olhar.
Estranho olhar... E,
para eles, por muitos dias, nada mais aconteceu, além daqueles longos
olhares, que os conduziam a planos superiores. Mas
a aproximação foi inevitável. Um dia, sentado na mureta externa do
corredor, calça jeans desbotada, balançando a botina sovada, ele, qual
felino a atrair sua presa, olhava-a. Ela, hipnotizada, atraída por seu
magnetismo intenso, levantou-se e, qual sonâmbula, foi até ele. Quando
suas mãos se tocaram, o momento foi mágico: todas as pessoas que os
rodeavam, subitamente, silenciosas se anularam, sumiram. E então,
restou apenas aquela mulher, que um dia fora triste, e o misterioso
cavaleiro errante dos seus sonhos. Materializado e verdadeiro...
Energia, movimento, músculos.
Meus olhos
percorrem todo esse universo
que é você.
Cabelos de prata.
Lábios sensuais a atrair.
Olhos verdes de gato.
Barba cerrada, por fazer.
Tranqüilidade, paz, confiança.
Meu coração
sente todo esse universo
que é você.
Silencioso, qual felino em guarda.
Carinhoso, protetor feito anjo.
Sempre um sorriso maroto
a distribuir felicidade.
Amoroso, ardente, possessivo.
Meu corpo
anseia por esse universo
que é você.
Mão na mão.
Olho no olho.
Pele na pele.
Qual nave errante flutuo
e, pela vida afora,
qual mendiga de sonhos
estendo as mãos,
busco migalhas,
desse universo que é você.
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