Membro Efetivo
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OBRAS - SELECIONADAS |
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MAIS
DO QUE UM CONTO DE NATAL A
notícia de que o tio João estava acamado, com gripe, caiu como uma
bomba. É que o tio João interpretava Papai Noel todos os anos. Era
figura indispensável nas festas de Natal. Encarnava com brilho incomum
o velhinho dos presentes. Os pequenos ignoravam que o tio João era o
Papai Noel ou que o Papai Noel era o tio João. Natal sem o tio João
– e sem o Papai Noel – não era Natal. “Boa Noite, boa noite”,
ele entrava em casa com sua voz arrastada. Interpretação perfeita. Passado
o impacto da notícia, todos os adultos olharam para mim. “Eu não”,
disse. Não tinha categoria para substituir o tio João. Nem corpo. Meu
porte físico era outro. Resumindo: fui convencido. Às
23h00 o clima era de extrema ansiedade. Minha filha mais nova, que
acreditava piamente na existência de Papai Noel, aguardava com os olhos
brilhando de emoção. Ela não abria mão das solenidades de Natal. O
filho mais velho acompanhava a euforia da irmã, embora já não mais
embarcasse na onda do velhinho. Para ele, Papai Noel era o tio João. Eu
experimentava uma sensação diferente, a de ser o Papai Noel.
Retirei-me da sala para os preparativos. Fui para os fundos da casa. A
roupa vermelha estava apertada. Alérgico, segurava os espirros diante
do cheiro de roupa guardada há muito tempo. A barba, as botas, tudo foi
se encaixando com algum sacrifício. As luvas... não serviram. Foi a única
peça da vestimenta que tive que deixar de lado. Olhando-me no espelho,
achei que não estava muito ruim. Acreditei que daria para manter o
clima. 23h30min. Começou a chuviscar. Eu deveria sair pela porta dos
fundos, caminhar pelo corredor lateral e bater na porta da frente. Três
minutos para a meia-noite. Havia chegado a hora. Ia saindo pela cozinha
quando me lembrei de que não usava luvas. Tirei o relógio e a aliança.
Só as mãos descobertas. Nenhum sinal de identificação. Caminhei pelo
corredor. Parei junto à porta da sala. Lá dentro, silêncio absoluto.
Bati. O riso nervoso da caçula foi fácil de ser reconhecido. A porta
foi aberta. “Boa noite, boa noite! Feliz Natal para todos!”.
Seguiram-se os abraços, a emoção, a distribuição de presentes, o
carinho, a alegria. Os espíritos estavam abertos à confraternização.
Não foi difícil ser Papai Noel por alguns minutos. O olhar divertido
do filho mais velho traduzia a incredulidade. Mas ele também se
integrava nos lances do Natal. A mais nova era toda alegria, crença,
admiração. Chegou o momento da despedida. Papai Noel tinha que visitar
outras casas, distribuir presentes para outras crianças. Abraços.
Votos de felicidade. Lá se foi o Papai Noel para a chuva novamente.
Trajeto em sentido contrário. Troca de roupa na cozinha. Minutos
depois, novamente na sala. De pronto, a caçula correu em minha direção.
Indagou onde eu estava que não tinha visto o Papai Noel. Explicações
esfarrapadas. Presentes foram exibidos com alegria. Elogios de todos a
Papai Noel , o velhinho que chegou respingando de chuva, com sua
bengala, seus presentes. Todos adoraram. Um autêntico Papai Noel.
Sentado, recebi a pequena em meu colo. Com as mãozinhas alisou o meu
rosto. “Gostou do Papai Noel?”, perguntei. “Gostei. Estava lindo.
Você não viu. Não ficou na sala”. Fez uma pausa. Riu baixinho,
olhinhos brilhantes. Confidenciou: “Tem uma coisa que adorei no Papai
Noel”. Fiquei intrigado. “O quê?” Ela sorriu feliz. Falou: “A mão
dele era igual a sua...”. OS
RETRATOS DE MAMÃE Sozinho,
na sala, fim de tarde, abro a caixa de fotografias. A
primeira é de casamento. Meu pai, jovem e circunspecto. Minha mãe
risonha, linda, vestido alvo. O sorriso puro que sempre enfeita o
semblante de todas as noivas. Na
varanda, de perfil, muito jovem, pousa as mãos sobre o ventre onde me
encontro. Embora não me veja, já me conhece. Outra
foto. O sorriso terno de mãe alia-se ao gesto protetor em torno da
criança de poucos dias. Mamãe voltou à varanda, buscando luz para o
retrato. O brilho do sol se confunde com o dos meus olhos. Os
anos passam rápidos num simples trocar de fotos. Agora ela se curva
para me beijar. Estou feliz, calças curtas, diplominha nas mãos. Noutra,
dançamos felizes. Ela é madrinha na festa de formatura da faculdade. Remexo
na caixa e crio uma sucessão de épocas. Encontro guardados todos os
cartões que lhe dei nos muitos Dias das Mães de nossas vidas. Não
vejo as datas. Minha letra revela o tempo. Uma
pasta com cartas está no fundo da caixa. As que escrevi quando deixei a
casa para trabalhar. A saudade provocou todos aqueles relatos. Ela as
guardou em seqüência. A última é da semana anterior à sua partida. Não
tenho mais fotos nem anotações. Daí em diante, os elementos que
possuo constroem seqüências de saudade. Ela não envelhece. Mantenho-a
jovem e bonita. Trago para a atualidade o momento do passado que
desejar. Em qualquer deles, ela sorri, está feliz, está comigo. Tenho
hoje mais idade do que ela quando se foi. Por anos, senti que nos
distanciávamos um do outro. Depois, experimentei um início de aproximação.
O tempo muda a feição das coisas. O reencontro, eu sei, virá. A
vida assemelha-se a uma trajetória alada. Há um ponto além do qual o
retorno é impossível. Já passei por ele. Não mais me afasto dela.
Nem ela de mim. O
Dia das Mães não é mais de dor. É de saudade, um dia a menos a
separar-me do seu abraço... FIM
DE TARDE Hora
do futebol de fundo de quintal. O cansaço mental de um dia de trabalho
reclama um pouco de movimento. O cansaço físico será bem vindo. Mas há
um motivo mais importante: os momentos passados com meu filho. Saio
pela área de serviço, nos fundos. Passo para o quintal. Um bate-bola
terá início dentro em pouco. O garoto vem em seguida. Eu entro no
quintal. Ele entra num estádio lotado de torcedores. Na sua imaginação
infantil, acredita ouvir a saudação da torcida. A camisa do seu time
é vestida com orgulho. Para mim, um encontro de fim de tarde, o prazer
de estar em casa, de desfrutar da companhia de meu filho. Para ele, uma
batalha futebolística está prestes a começar, um jogo contra o maior
de todos os jogadores: seu pai. Postados
cada qual a um canto, improvisando nossas metas com tijolos, damos início
àquele encontro sensacional. Aos meus movimentos de pessoa sem treino e
já sem elasticidade suficiente, sucedem-se as corridas leves e os
chutes rápidos do garoto. Gols daqui, gols dali. Partida dura. Chutes
para lá e para cá. Para mim, a empolgação de vê-lo sorrindo. Para
ele, a vibração intensa de um clássico. De um lado, revejo meus
tempos de menino; do outro, com o colorido da imaginação, desfilam
jogadores de renome. Partida chegando ao fim. Jogo difícil, empatado. O
gol decisivo não surge. Expectativa e até nervosismo. Repentinamente,
uma jogada pelo alto. Como num filme em câmara lenta, a bola começa a
cair. Rápido, o pequeno vislumbra a possibilidade de um cabeceio. Parte
firme, acerta a bola enviando-a à minha meta. É o lance decisivo.
Desajeitado, perco o equilíbrio (teria perdido mesmo?). A bola escapa
das minhas mãos. Entra macia no gol. Gol da vitória. Estou estendido
no chão, cansado, feliz. Ouço meu filho gritar, comemorando. Não se
ouve outro ruído no quintal. Permaneço no solo. Para ele, um estádio
vibra, a rede balança, a vitória foi alcançada. Ele corre pelo
quintal (ou pelo gramado) dando socos no ar. Ouve a torcida festejar e
festeja com ela. No seu pequeno e colorido mundo tudo é festa. Afinal,
venceu. Sentado,
ouço seus passos vindo em minha direção. Sinto o seu abraço suado,
entusiasmado. Meu filho já não abraça o adversário, abraça o
companheiro de equipe. Parece até que lhe dei o passe para o gol. Vejo
o seu sorriso largo e sinto em meu coração a alegria que vai no dele.
Para mim, a sensação gostosa da amizade pai e filho. Para ele, um estádio
com milhares de crianças vibrando com a vitória do seu time. A
felicidade me contagia de tal maneira que passo a ouvir o ruído
ensurdecedor da torcida. E
nós comemoramos juntos a conquista da Copa
da Alegria.
SEMPRE A
“vilazinha” era um lugar tranqüilo. Uma pequena entrada, com início
em guia rebaixada junto à rua principal, levava a um conjunto de
sobradinhos, uma espécie de pequeno condomínio, um oásis de sossego
no meio da agitação da cidade grande. Carlos,
55 anos, aposentado, morava no último sobrado, lado esquerdo. Vivia
sozinho. Sua esposa, Alice, falecera havia dez anos. Sem filhos, contava
apenas com uma empregada doméstica de meia idade, que cuidava da casa.
De resto, fazia tudo pessoalmente. Saía pouco, geralmente para ir ao
cinema, ao teatro ou a uma reunião com poucos amigos. Era estimado
pelos vizinhos, uma pessoa que não incomodava. Acordou
cedo naquele dia dos namorados. Na véspera fora deitar-se pensando na
data. Talvez por esse motivo não tivesse dormido bem. Sonhara com
Alice. Levantou-se experimentando a nostalgia de lembranças de outros
dias dos namorados passados com a mulher. Alice fora sua única
namorada, coisa dos tempos de criança que vencera os anos,
transformando-se em casamento. A vida em comum havia sido boa. A saudade
batia e machucava. Da
janela do seu quarto, no andar superior, com vista para a ruazinha,
sentia o frescor da manhã e o sol que acariciava a pele. Com tristeza,
lembrou-se do passado. Alice, em seus últimos dias de vida, insistira
com o marido para que procurasse definir-se com alguém. Preocupou-se até
o instante final com as conseqüências danosas que representaria a
solidão para Carlos. Sabia-o apegado ao lar, às coisas da casa, à
vida metódica. Mas, apesar dos conselhos e preocupações de Alice,
Carlos jamais encontrara alguém com quem pudesse tentar nova vida em
comum. Passados os primeiros tempos da perda, tivera contatos com outras
mulheres já conhecidas e outras que não conhecia, porém, esbarrava
sempre na instintiva comparação com Alice, observação que descia
dolorosamente aos detalhes. Já
que tivera vida em comum com Alice marcada somente por momentos de amor
e de carinho, por várias vezes rezava para que, de alguma forma, lhe
fosse enviado um sinal, um indício, que amenizasse a saudade. Naquele
ano, o dia dos namorados havia caído num sábado. A temperatura era
amena, o sol aquecia de modo agradável e Carlos sorvia a claridade como
que buscando aquecimento para a sua alma. Lembrou-se, ainda na janela,
dos hábitos diários de Alice, a preocupação com os detalhes da casa
e das coisas do casal, os trejeitos, as variações do penteado, as
frases bem humoradas que dizia com freqüência. Lembrou-se de uma
observação que ela fazia quando o sábado amanhecia ensolarado e
bonito: “Hoje é um sábado
de verdade”. E de como, ao desjejum, num gesto extremo de carinho e
intimidade, mexia o seu café e depois o dela. Saiu
bruscamente desse devaneio quando ouviu seu nome ser pronunciado. Fixou
o olhar na direção do chamado. Era a nova vizinha do sobradinho da
frente. Helena era o seu nome. Mudara-se recentemente. Mulher de
quarenta anos. Já a observara dias antes. Vivia sozinha, sempre
ocupada, dera nova feição à casa, decorando-a com flores e pintura
nova. Tornara o sobradinho atraente. Carlos sentia algo familiar naquele
aspecto. –
Bom dia – cumprimentou ela. Desça e venha tomar café comigo
– acenou. Carlos
fez um gesto com a mão para que ela o aguardasse. Desceu e atravessou a
rua. Nunca conversara com ela. Helena o recebeu com um sorriso espontâneo.
Convidou-o para entrar. Atravessaram a sala da frente e saíram para uma
área no diminuto quintal. Ali, sob um toldo de cores alegres, estava
posta a mesa do café. Todos os sobrados obedeciam à mesma planta.
Carlos surpreendeu-se com o conjunto, o ambiente, os detalhes. Tudo
muito familiar. Uma sensação agradável o invadiu. Sentou-se.
Agradeceu o convite. Recebeu outro sorriso de volta. Helena passou a
servi-lo enquanto conversava. Preparou, depois, o seu próprio desjejum.
Tudo aquilo evocava uma época e Carlos tinha a sensação de que estava
sonhando. A própria voz de
Helena tinha um timbre conhecido. Fitou-a em silêncio, admirado. Em
seguida, acompanhou o movimento de sua mão, mexendo o café que lhe
servira. Estupefato viu quando ela, com a mesma pequena colher, mexeu o
café de sua xícara. Olhou-a diretamente nos olhos e ouviu encantado
Helena dizer: –
Hoje é um sábado de verdade...
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