Membro Efetivo


Luiz Antônio Barbosa da Silva
Cadeira -  15
Patrono: Nidoval Tomé Reis

OBRAS - SELECIONADAS


A ULTRAMARATONA

 

              (Poema extraído do livro O poeta pobre na terra dos mestres)

 

Ame o belo!

Porque nele reside um pouco

da concepção ética e estética do Criador

 

Ame-o!

Porque tem charme e carisma

como nenhum outro elemento da natureza

do fascínio das palavras

a mais ínfima habilidade manual

da vastidão infinita

às profundezas do mar

 

Ame-o intensamente

mesmo sabendo que a recíproca

nem sempre é verdadeira

 

Amando-o

talvez aprendamos a extrair

da imensa fealdade que nos cerca

um pouco de beleza interior

E certamente sentiremos

o prazer gratificante

de apenas meros corredores

termos percorrido

a duríssima ultramaratona da vida!



O FIM DE UMA ARTE

 

A imensa platéia aguardava ansiosamente aquela voz forte, cheia, grave, isenta de emoção, que anunciaria o grande vencedor do festival dos festivais pela Rede Globo, comemorando duas décadas de sucesso absoluto.

Ao ouvir o seu nome, ela levantou-se, o corpo atravessado pela corrente elétrica mais deliciosa do mundo, a da expectativa confirmada. Abraçou e beijou todos quanto pôde. Transfigurada, interpretou seu clássico campeoníssimo, Escrito nas estrelas.

Assistindo emocionado ao evento pela TV, Antônio conjeturou: “Que vitória extraordinária, como é bom ser vencedor”. Mais tarde soube das imensas dificuldades vividas por Tetê Espíndola, até ver coroada a carreira de lutas e sacrifícios. “Se ela conseguiu, posso conseguir também, meu Deus, ajude-me a conseguir”, suplicou.

Considerado por si mesmo um subnitrato de merda em pó, trinta anos de asneiras e fracassos, ex-favelado, ex-detento, pelo menos duas vezes salvo de morte certa, desistente das carreiras de violonista e intérprete, por falta de coordenação motora e dom natural para o canto, chegou a outra conclusão lamentável, jamais seria um esportista exímio, apesar de apreciar entusiasticamente as modalidades olímpicas. Como consolo, só pelada de rua mesmo.

Decidido firmemente a integrar o universo artístico, começou a escrever. De inteligência aguçada, logo chamou atenção sobre alguns dos textos. “Gostaria de levá-lo ao Projeto Talento da Secretaria de Cultura, quem sabe lá eles te dão uma força”, dissera João, um amigo. Antônio agradeceu recusando. Imaginava-se um espectador no palco da vida, contentando-se em deixar os versos à posteridade, importava que chegassem ao conhecimento da mídia, nem que fosse no século XXI.

Sete anos depois.

  O mundo não os conhece, viu, ou reconheceu-lhes os talentos mas eles (os artistas inéditos) existem mesmo em meio à névoa; o brilho deles espelha grandeza e ela está em toda parte...

– Este é um dos trechos do poema do pedreiro-poeta Antônio..., ensaiava diante da câmera o repórter Marcos Gomide.

– Desculpe, mas a frase correta é “Este é um trecho de um dos poemas...”, corrigia-o estranhamente calmo.

– Correto, vamos começar de novo. Recitou com voz modulada a supracitada parte inicial do poema belíssimo e continuou:

– Este é um trecho de um dos poemas do pedreiro-poeta Antônio Silva, com características auto-biográficas, por quê?

– Faço parte de uma constelação de pessoas ligadas à arte espalhadas em todo o mundo, que apesar da qualidade e quantidade do que produzem, vivem no ostracismo, sem ter o seu trabalho valorizado. O poema é um protesto e uma homenagem a esses sofredores. Em seguida foi mostrada a família do poeta, mulher e filha, a biblioteca (uns trezentos volumes). Renascer, o único livro publicado, de tiragem já esgotada, um pano de limpeza onde estavam bordadas as palavras “Deus é amor”, estendido sobre a tampa do fogão, o quarto e cozinha de madeira onde residia em um bairro barra pesada. O local de trabalho assentando azulejos. A reportagem foi ao ar no SP TV, de 21 de   novembro de 92.

Na esteira da breve notoriedade consultou o dono da maior livraria da cidade. Antes de ser atendido, ouviu-o dizer à secretária:

– Explicou a ele que só editamos livros didáticos?

– Sim, senhor. Recepcionado friamente, saiu dali sem qualquer indicação ou possibilidade de patrocínio.

Os porta-vozes do órgão cultural trovejaram:

– São mais de cinqüenta escritores na cidade, não temos verba nem meios de atender a todos. Estamos pensando num concurso cujos vencedores terão, como prêmio, livros publicados.

Tal projeto continua no limbo da teoria.

Um comerciante amigo disse-lhe:

– Escreva à “Porta da Esperança”, eu tenho o endereço, se a Globo não resolveu seu problema, o SBT vai resolver, é só acreditar.

Cisne Negro II

 


NAVEGADOR DE ABISMOS

 

O NAVEGADOR aventura-se

na contramão das águas

em seu barquinho de nada

prisioneiro da ilusão...

das visões, dos delírios...

 

PROCURA febrilmente na linha do horizonte

as areias rosadas, as douradas,

as palmeiras anãs, os caramanchões,

delícias de Belize...

 

ENCONTRA arquejante

metáfora e vida entrelaçadas

na ilha dos sonhos em escombros...

 

O NAVEGADOR PODERIA

cruzar os mares do sul

enriquecendo seu diário de bordo...

 

MAS, é apenas um ponto no meio do mar

soçobrando...

à deriva...

na orla das corredeiras fatais

abismos de indiferença cultural

sem apoio, sem chance.

 

LUTANDO contra seu algoz, o destino cético

que louco, cobra-lhe fé...

 

O NAVEGADOR precisa

deixar um legado

nem que seja para seu filho...

as estrelas e as árvores!

 


 

A LIÇÃO DO MESTRE II

 

Ele disse:

 

“Os desdobramentos inesperados

da imaginação

às vezes são como o fruto proibido,

uma região de beleza abismal

e retorno incerto.

 

Cada passo um diamante,

um medo selvagem, inexplorado

enigma no pilão,

iguaria desconhecida,

pente fino no arco-íris...

Pertence aos olhos apenas um instante,

que pode durar pra sempre.”

O mestre se foi...

E eu fiquei ali, ao sol da meia-noite

sem saber o que fazer,

abraçado às armadilhas ilusórias do destino,

preso inexoravelmente ao raio misterioso e inquie-

tante da morte.

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