Membro Efetivo


Isolina Bresolin Vianna

Cadeira - 12

Patrono: Semíramis Mourão de Almeida

OBRAS - SELECIONADAS


             LOURA E LINDA...

 

Frágil, pequenina, delicada, loura e linda!

Dava vontade de pegá-la no colo, acariciá-la com cuidado, muita ternura, muito carinho, muito amor.

Era assim mesmo que ele sempre a via, era esse o sentimento que sempre, desde o primeiro instante, ela inspirou a ele: parecia-lhe uma adorável boneca de porcelana que ele amou no ato.

Embora não fosse machista, Otávio se sentia muito bem e muito homem ao lado de Noélia. Sua preferência sempre fora o tipo mignon, bem feita de corpo, assim loura e com esse ar de desamparada e frágil.

A pele de Noélia parecia de porcelana: muito clara e muito igual, na sua palidez perolada. Até essa palidez lhe parecia tão bonita!

... Fora difícil aproximar-se dela; muito esquiva, muito arisca, parecia fugir dos homens e até isso o encantou. Caro lhe custou conseguir o primeiro encontro. Mas valeu a pena. Depois dos primeiros encontros, difíceis e emperrados, ela se soltara, afinal.

... Noélia relutara muito e tivera de lutar consigo mesma, uma luta feroz, desesperada e sem vencedores, só vencidos.

Como ela se aninhava, pequenina e delicada como uma criança, tão leve junto ao seu vasto peito protetor. Era tão sensível e tão meiga!

Às vezes chorava, um choro silencioso e dolorido que tocava fundo no mais recôndito do seu ser...

Meu amor, por que você chora?

Porque sou tola e muito feliz.

... E as lágrimas corriam, grossas e silenciosas, formando dois minúsculos arroios a escorrer sobre a porcelana daquela face pálida, translúcida, tão linda e tão tristonha.

Se você é tão feliz, por que tem esse ar tão triste e por que chora tanto?

    Já disse, porque sou tola. Mas não estou triste. Sou feliz até demais, ao seu lado, meu amor. Sou feliz além até do que mereço, muito além do que qualquer pessoa neste mundo, na minha situação poderia almejar, porque tenho o seu amor. Choro porque tanta felicidade me comove. Sou tão feliz em ter você meu querido amor... E lágrimas corriam...

... Eles eram realmente felizes, muito felizes, completamente felizes, vivendo um amor tão grande, tão profundo, puro e gratuito...

Ninguém cobrava nada de ninguém, nem ciúmes, nem reclamações, nem reparos de atitudes. Não faziam planos, não questionavam a vida, nem pensavam no futuro. Apenas viviam e se amavam como se sempre tivessem esperado por isso, como se fora durar para sempre esse enlevo, esse encantamento que deslumbrava os dois, que os ofuscava e não viam mais nada. Viver esse sonho era tudo o que queriam, era o quanto bastava para eles.

... Um dia, ela não veio...

No prédio de apartamentos onde ela morava disseram apenas que ela voltara para o interior, de onde viera. Não sabiam bem onde. O interior era tão grande... Ele não encontrou nenhuma pista: nunca indagara nada, nunca pedira uma informação. Mal sabia o nome dela: Noélia porque nascera na noite de Natal.

Às vezes ele ia ao apartamento dela, mas quase sempre era ela que ia ao dele. Nunca vira um documento dela. Nem mesmo sabia como e do que ela vivia. Para que indagar, se eram tão felizes?...

... Foram semanas e meses de espera, de procura, de busca, em vão.

Ele passava pelo barzinho onde às vezes tomavam chope, sempre na mesma hora em que iam antes. Ia à casa de discos onde eles costumavam escolher suas músicas favoritas, seus gostos sempre combinando.

Passava horas na frente do prédio onde ela morou. Também ficava na frente do cinema preferido dos dois, onde passavam filmes de seus artistas e diretores preferidos. Vigiava a entrada dos teatros onde ambos haviam ido juntos  um  dia  e  sonhava  que  ia vê-la...

... E como doía tudo isso...

Parecia-lhe vê-la em cada loura delicada que passava.

.. E ela não veio, nunca mais...

Ele chegava a ter pena dos saguões de cinemas e teatros que nunca mais refletiram em seus espelhos aquela imagem tão linda!

... Otávio nunca mais a viu, nem teve notícia dela, por mais que procurasse, por mais que esperasse. Somente em seu pensamento permanecia o vulto da linda lourinha que ele amara tão intensamente e que também o amara... quem sabe?

Aí começou aquela fraqueza, aquele cansaço.

Procurou não mais pensar nela, para não se angustiar mais.

Já era tarde; a angústia se apossara dele de tal maneira que um dia não pôde nem mesmo se levantar da cama. Foi um grande susto para áquele rapagão sadio de antes.

Foi ao médico.

Os exames de laboratório comprovaram: AIDS.

Agora, finalmente, ele sabia porque ela chorava tanto... tão sem motivo... Que ironia atroz!...

Frágil e delicada...

Pura e sincera...

Loura e linda...


 

APOTEOSE

 

... Na sombra das flechas, tombou o herói-mártir...

Nasceu a rua Monsenhor Claro,

com gente correndo, passando, fugindo e chegando

e as casas subindo e as ruas, “ruando”...

 

Lá embaixo, no vale do rio, começa o povoado:

Rua Araújo Leite...      

             

A luta e a paz

 

E sobe o presbítero, bem longe de lá

e começa a Batista, antes Dos Esquecidos

hoje de “batistar”, no comércio pujante...

 

Da areia escaldante ao asfalto febril

e lá, mais distante, tocando o céu de anil,

a torre da catedral...

 

E os homens-torres:

pioneiros, políticos, religiosos e operários,

construindo seu destino...

 

Operários construindo,

Professores instruindo,   

E a juventude vindo, estudando, pesquisando...

O passado voltando e Bauru “progressando”...

Com o sangue de Azarias regando,

A planta viçosa, cresceu bem frondosa,

deu frutos sadios

Não ricos, preciosos, mas os mais deliciosos,

do amor, da ternura...

Do próximo amar e a ele assistir,

sem nunca negar...

 

Cidade rimando com caridade...

É Bauru, venha cá

Aqui está o teu irmão,

de braços abertos

BAURU-CORAÇÃO!...

 


 

BAURU CENTENÁRIA

 

Quando Deus, no infinito estrelado

Determinou criar uma cidade,                  

Depois de ver o chão quente e areado,

Viu dos Índios a ferocidade.

 

Nessas brancas areias a Índia Vanuire,

Mandou para a todos apaziguar.

E assim Bauru adquire

A força pra crescer e prosperar.

 

          E veio a paz, a alegria, a locomotiva.

          E veio com ela o homem mais culto

          E a escola, a educação que motiva

          E faz ao longe aparecer seu vulto:

 

          A cultura, a indústria e o progresso

          E a beleza da urbanização,

E homens bons lidando com sucesso

E crescendo também no coração.

 

          Agora, ao completar cem anos,

          Olhando para o tempo que passou,

          Quanta gente que nós tanto amamos,

          A semente do progresso aqui plantou.

         

          Hoje, agradecidos e contentes,

          Homenageamos a vós pioneiros,

          Nós, os vossos descendentes,

          A vós que fostes os primeiros....

 


 

HOMENAGEM A BAURU

 

Bauru criança,

Bauru menina,

Bauru mulher,

que mulher também é “um cesto de frutos”.

             Fruto de carinho.

             Fruto de afeição.

             Fruto de compreensão

             e fruto de criação.

 

             Bauru dos índios,

             depois dos pioneiros,

             mais tarde dos operários

             que construíram sua estrutura

             de fé, na religião;

             de esperança, no trabalho

             e de caridade, no amor ao próximo,

             representado pelas suas múltiplas instituições.

             É Bauru dos Cem Anos,

             forte, vigorosa, indômita,

             levando nas mãos

             o facho do porvir...

 

 

 

<< voltar