Membro Efetivo


Munir Zalaf
Cadeira -  11
Patrono: Rubens Pupo

OBRAS - SELECIONADAS


ORAÇÃO AO MESTRE

 

Mestre,

Apóstolo, pregador,

Farol, luz, sacerdote,

Sol, lua, luz de vela,

Timoneiro,

Nós te agradecemos

A bússola,

O remo,

O barco,

O rio,

A indicação da Porta,

As letras,

A lua conquistada!

 

Mestre!

Ainda com gosto do leite materno na boca,

Nos embalaste no berço dos teus conhecimentos

Apontando-nos o Caminho.

A criança e o jovem amadurecem no adulto

Crescido à luz dos teus ensinamentos.

 

Descemos o Monte Ararat,

Pousamos na lua,

Dividimos o mar,

Conquistamos o átomo,

Porque nos conquistaste.

Somos médicos, engenheiros, cientistas,

Somos advogados, empresários, jornalistas,

Somos poetas, escritores, lavradores,

Governadores, mecânicos, artistas,

Somos operários, comerciários, bancários,

Homens do mar,

Homens do ar,

Pais e filhos, gerações,

Construindo a família,

Construindo o mundo!

 

Ainda somos as crianças

Com gosto do leite materno em nossas bocas

Gozando as “bem-aventuranças”

Que nos transmitiste.

A criança e o homem

Que existem em cada um de nós

Te reverenciam!

Obrigado, Mestre,

Alavanca

Que nos permitiu ser o que somos:

Gente!

  


 

HOJE ACORDEI POETA

 

Hoje acordei poeta

Com as águas da torneira

Me entoando melodias,

Com o sol me abraçando,

Aquecendo o corpo inteiro

Ao abrir minhas janelas.

 

Acordei poeta

Ouvindo as samambaias

Sussurrando verde para a vida,

No canto da passarada

Me convidando a ser poeta.

 

Rosas vermelhas,

Brancas, amarelas,

Rosas cor de rosa,

Poemas na manhã de esperanças.

 

Ternura da brisa envolvendo folhagens,

Segredando-lhes cálidos cantos de amor.

 

Cheiro gostoso do café quentinho,

Do ron-rom do carro do vizinho ao lado

Esquentando o motor,

Ritmo da vassoura da vizinha da frente

Dançando na calçada.

Por tudo isso, mais o sol, mais o céu.

Mais a alegria de viver, de amar,

Hoje acordei poeta.

 

Na minha primeira conversa do dia com Deus,

No agradecimento pelo ontem,

Por agora, pela nova manhã,

Por eu ter acordado poeta.

 

No meu mundo de paz

Sem fome, sem sangue,

Sem trancas nas portas,

Sem desigualdades,

Sem prantos e desamor,

Hoje acordei poeta!

 

Pena que muita gente,

Pena que a maioria

Nunca acordou poeta...

 


 

SOLUÇOS NA MINHA RUA

 

Morreu uma criança na minha rua,
             Quase vizinha,

Um quarteirão antes dos meus poemas.

Mal a conheci.

Nunca reservei tempo para as crianças.

Às vezes cruzava suas cirandas,

Desenhando os sonhos que não viveria.

Flores, mãos úmidas se tocando,

Olhares vazios nas perguntas caladas,

Soluços doloridos do adeus,

O sol acendendo caminhos invisíveis.

 

Nuvens choraram as águas da saudade,

A chuva ecoou versos na Terra

Que se abriu para beber

A criança que morreu na minha rua.

 

Não me perguntem se chorei.

Perguntem-me, apenas,

Se entendi.

Porque uma criança morreu na minha rua,

Um quarteirão antes dos meus poemas...


 

DELÍRIO E AGONIA

 

Envergando a armadura da esperança,

Galopei o corcel da fantasia.

A fibra e a força na ponta da lança,

A ânsia da conquista em euforia.

 

Com o sol escrevi minha aliança,

Com as estrelas, minha galhardia.

E, na incontida busca da bonança,

Quantas vezes minh’alma se feria.

 

Milhões de gargalhadas me agredindo,

Mãos frias invisíveis me ferindo,

Todo o meu corpo se esvaindo em sangue.

 

Eu no pó, eu semimorto, eu exangue...

E ao meu triste delírio e agonia,

A platéia espumava de alegria!

 

 

 

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