Membro Efetivo


Carlos Abreu Carvalho
Cadeira -  10
Patrono: Martinho de Abreu Carvalho

OBRAS - SELECIONADAS


NOS DEGRAUS DA CÂMARA MUNICIPAL

 

(poema inspirado no menino de rua que vi, dormindo num dos degraus da escadaria, enquanto caía uma chuva fina...)

 

Como gritar, se meu grito não passa de grito,

de grito que grita e irrita os ouvidos

daqueles malditos que calam meu grito?

Como esperar, se a espera não é mais que espera,

espera que espera atingir o impossível?

Pra que lamentar, escrever, poetar,

se a Poesia é somente a poesia-poesia

palavras que buscam matar essa fria,

essa fria verdade, verdade vazia, vazia e tão cheia

de portas fechadas?

Ali bem na frente, na frente da Casa,

da Casa onde falam os "inconformados"

com tanta miséria, miséria na frente, na frente

da Casa, da Casa onde falam e fazem as leis?

Sob uma bandeira, bandeira adorada,

que tremendo aos ventos, aos ventos tão fortes

que apressam a morte de quem já nem vive,

mas que ainda respira, e  respira deitado,

deitado e encolhido nos degraus da escada

escada da Casa onde treme a bandeira!

Cambada de "eus" - indivíduos pecado

pecados que pulam, fingindo não ver

a criança que morre, que dorme e nem sonha,

que teme e que corre, levando porradas,

porradas que ferem, que ferem na alma,

na alma de um povo que pede socorro,

socorro sem volta, num grito sem eco,

sussurro penoso no vento que espalha

que espalha essa palha... essa palha já seca?

Você não me entende? Não sabe o que quero?

Eu quero esse verde, esse verde do pano,

envolvendo o humano!

Eu quero o humano amando o menino,

menino que corre, com medo da vida!

... É assim esta Vida, essa vida fuleira

que hasteia a bandeira e que pula o menino...

Mas... tanta miséria, tanta insensatez

nos degraus dessa Casa, onde fazem as Leis?

 

É assim que eu escrevo...

Rabisco meus sonhos,

num mundo medonho e distante de mim!


 

 

PROFECIA

 

De ação

              de movimento

                                       nada!

Parado e mudo                          

                    permanece o pêndulo

 

Tempo... mundo... Terra fossilizada

à espera de um incerto despertar...

             


Pássaros e borboletas

                         agora estrelas

                                         rente ao chão

Sepulcral silêncio

              Bocas entreabertas

                                  na  estática das palavras

                                                            cortadas ao meio

Flores hasteadas... feriado colorido

 

E eu, qual pêndulo parado

contemplando o talvez

                                com meus olhos de vidro!


 

À PROCURA DO NINHO DE  DEUS

 

Era qualquer dia, dia de qualquer mês,

e poderia mesmo ser um dia qualquer...

Dia de qualquer mês...

Qualquer mês de qualquer ano...

Qualquer ano em qualquer lugar...

Num certo momento...

Num certo barraco...                    

Barraco de morro...

Nasceu um menino...

 

– VIVA!!! Mais um brasileiro!!!

 

E o  tempo que passa, passou...

– Mãe, por que a gente não mora lá embaixo?

– Lá só mora gente rica, filho.

– Pai, onde você trabalha?

– Guarda-noturno de uma fábrica.

– Quando crescer vou ser guarda-noturno e rico...

(Ah, esse tempo que passa...)

 

– A senhora entende, para seu filho estudar tem que se matricular na escola mais próxima de onde mora...

– Eu sei, o senhor já disse. Mas naquela  porcaria de escola só tem pivete. Precisa ver...Tem moleque que tem  até faca...

– Mas é lei do Governo, minha senhora. Agora, se me dá licença...

– Moço, nem mais merenda tem lá...Disseram que o Governo não está mandando.  O senhor  sabia disso?

– É... Estamos atravessando uma crise...

– Concordo com o senhor... Crise de falta de vergonha!

– Não é bem isso, minha senhora... É que...

– Até logo! Fique aí com sua escola!

 

– Mãe, o pouca-sombra disse que a cara do pai tá no jornal...

– Deve ser algum parecido...

– É nada, ele disse que tem até nome!

 

 (Silêncio)

 

– O pai é ladrão, né, mãe?

 

 (Lágrimas)

 

– Chora não, mãe. O pai é vivo, aposto que logo, logo, ele escapa da cadeia. Faz que tá doente e, quando a polícia for dar remédio, ele enfia a peixeira até o cabo!

(A mãe bateu, bateu, bebeu e chorou...)

 

– Ó senhor meu Deus! Faz o Dito voltar logo...

  Tira esses pensamentos da cabeça do meu filho...

  Ele não pode tomar o rumo do pai!... 

  Eu já tô arrependida daquele tapa que dei...

  É aquela maldita escola, lá tem tudo o que é ruim!

 

– Pra quem a senhora pede, mãe?

– Pra o Senhor nosso Deus, Justino.

– Onde ele mora, lá com os ricos?

– Não, filho... Eu acho que não...

– Eu não fiquei triste com você, não, mãe.

– Vai dormir que já é tarde!

– Mãe...? Eles dão comida pro pai?

 

(E Justino cismou que Deus morava lá em baixo...)

            

E o menino Justino, miúdo, franzino, girou a cidade em busca de Deus...   

Foi casa por casa, cheio de inocência, torrar a paciência do povo de lá...

 

– Deus? Que estória é essa, moleque?

– Ah, só me faltava essa!...

– Deus? Nem aqui e nem no céu!

 

(Confuso voltou Justino...Deus não existe?)

 

– Mãe?

– Fala, Justino.

– Eu não queria magoar a senhora, mas...

– Mas o que, menino? Fala!

– Ele não existe...

– Quem?

– Deus, mãe. Ninguém sabe d’Ele...

– Existe sim.

– E onde mora, mãe? Na cidade é que não é.

– É no céu, Justino. Já lhe disse!

– No céu?

 

E Justino ficou pensando...

 

  “Coitada da mãe...

   Ela fica olhando pro céu.

Será que ela não entende que se mora lá é porque não gosta daqui?

Acho que Deus é metido e só pensa n’Ele...”

 

A noite caiu sobre o morro e Justino falou pra Deus:

 

 

– Coitada da mãe... Rezando pro céu?

Será que ela não vê que se você mora aí, não deve gostar daqui?

Se você existe mesmo, como diz a minha mãe, por que fica só aí em cima, se a gente  sofre aqui embaixo?

Afinal, qual é a sua? O pai tá lá na cadeia e, vai ver, passando fome...

E a mãe lava tanta roupa, desce e sobe essa ladeira, geme quase a noite inteira, e você não escuta, Deus?

Desce aí dessas estrelas e vem cá viver no chão.

Vem tirar o pai da cana, pois você é Deus ou não?

E se mesmo sendo Deus, cê não pode fazer nada, pra que é que ela reza, se essa reza vira nada?

Cê já foi pobre também...  Já saquei sua jogada! Você era aqui do morro.   

Cansou de gritar socorro, cansou de levar rasteira, e um belo dia tentou voar como passarinho. Aí no céu fez seu ninho, se enjoou de choradeira!

Mas o céu não é tão longe. Quero ver você de perto...

Quero ver você falar que demora, mas não falta, pra consertar essa vida, essa  miséria que há!...

 

Justino dormiu rezando, e o dia amanheceu lindo. A vizinha, apavorada, chegou   correndo a gritar:

 

“Dona Maria! Dona Maria!

Seu moleque ficou  louco!

Tá lá no morro do coco com uma coisa esquisita!”

– Ah! Meu Deus, Jesus Divino, lá tem a pedra da morte, não piore minha sorte, me protege o meu menino!

E, chorando, a mãe correu...

Na pedra chegou chorando, mas seu pranto se fez riso, ao ver seu filho voando!

Numa estranha brincadeira, com folhas de bananeira bem amarradas nos braços, Justino  dançou no  espaço, fez piruetas no céu...

Maria ficou rezando, com os olhos ainda molhados, e no infinito, colados, acompanhando Justino. 

Tão estranho, tão menino... Tão carente de  respostas...

Justino foi se elevando, até se perder no Azul !...

 

 

 

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