Membro Efetivo
|
|
OBRAS - SELECIONADAS |
|
|
|
TROVAS Sente,
a justiça, o desgosto do
injustiçado a chorar e
tira a venda do rosto para
o seu pranto enxugar. Comparo
a um pano rasgado este
amor, ao qual me rendo. Quando
parece acabado, um
de nós... faz um remendo! Por
mais que o mundo me agrida minha
fé nunca arrefece... Mesmo
no inverno da vida Deus
manda o sol que me aquece! Quando
a vida se distrai ou
dá tudo ou tudo nega. Rico...
pega o carro e sai. Pobre
sai... e o carro pega! São
os brincos de safiras que
me deste em tempos idos, testemunhas
das mentiras que disseste em meus ouvidos!
A
DOAÇÃO DE ÓRGÃOS (crônica) Hoje,
ao passar pelo hospital, tomei a decisão que vinha protelando há
meses: doei todos os meus órgãos. Ao assinar o cartão “Vale Vida”
comprometi-me, em caso de morte cerebral, a doar: fígado, pâncreas,
pulmões, córneas e coração. Voltei para casa feliz e, antes de
comunicar o fato à família, procurei um livro que satisfizesse a minha
curiosidade em relação a todos os órgãos doados. Como nunca me deram
trabalho, quase nada sei deles... Li,
com atenção, a explicação detalhada sobre cada um deles e, ao
terminar a leitura, fechei os olhos e meditei profundamente sobre a
maravilha que é o corpo humano, máquina perfeita idealizada e criada
por Deus! Como
tive a graça de ser uma pessoa saudável cheguei à conclusão que,
quanto à parte “mecânica”, todos os órgãos doados estão ótimos! De
repente, a preocupação se apoderou de mim ao imaginar esses seis órgãos
acostumados ao meu corpo por mais de 60 anos, em outro corpo diferente
do meu!... Como
reagirá o meu fígado, já que sou abstêmia, ao sentir o gosto do álcool
se for doado a alguém que aprecia a cerveja, o chopinho gelado, o uísque
ou a famigerada cachaça? Pobre dele... terá cirrose, na certa! Os
rins não darão trabalho a ninguém, como não deram a mim. Imagino-os
quase perfeitos. E
os pulmões? Como reagirão no corpo de um fumante inveterado? Certamente
ficarão asfixiados, tossirão pigarrentos e logo estarão doentes e
imprestáveis. Peço
desculpas aos médicos que farão os transplantes, pelo descaso com que
sempre tratei o pâncreas. Na verdade, nunca me lembrei dele e, por
isso, nunca fiz exames para saber se sou propensa ao diabetes. Abri
os olhos e saí à janela. Entardecia...Olhei o mundo à minha volta: na
rua as crianças brincavam alegremente e eu lhes ofereci o meu sorriso e
a ternura do meu olhar. O ipê-amarelo, quase sem folhas e carregado de
flores, encantou-me e só desviei o olhar para acompanhar o vôo de um pássaro
à procura do ninho. O sol, ao esconder-se, deixou o céu todo colorido
e eu fiquei à espera de que a noite chegasse de mansinho. Olhei
a lua, musa inspiradora de sonhadores e poetas... As estrelas
salpicavam, com seu brilho, o manto azul da noite. Em silêncio,
deslumbrada, rendi minha homenagem à mãe natureza por esse belo espetáculo! Entristeci-me
à idéia de que os meus olhos, sempre voltados para as coisas belas e
simples da vida, possam ser doados a alguém materialista, alheio às
belezas do universo. Seria tão bom se eles fossem dados a uma criança
que, ao despertar para a vida, se acostumasse a admirar as coisas do
mundo que nos proporcionam a verdadeira paz e a mais completa
felicidade! Senti
o coração apreensivo e chorei!... Coloquei
a mão sobre o peito e senti as pancadas aceleradas e descompassadas do
coração. Deus agraciou-me com um coração paciente, moderado, meigo,
compassivo, lutador e emotivo... Um coração que se alegrou com as
alegrias alheias e se entristeceu com a injustiça e a opressão aos
mais fracos. Foi leal e sincero no amor. Rezou pela paz e sofreu ante a
violência. Não
guardou rancor... não foi vingativo! Ah!
este velho coração de poeta, teimoso e sonhador, como me fez feliz!!!
Ajoelhei-me e pedi a Deus mais uma graça, ao lhe dizer num murmúrio: Senhor,
quando eu partir, sei que meu coração continuará a bater alegremente
como sempre fez. Que, ao ser doado, ele se aninhe no peito de alguém
igual a mim, que não se envergonhe de sonhar... Que o meu coração
seja colocado, com carinho, no peito de um irmão de sonhos, um poeta
como eu! Assim seja. MEU
CREDO Nesta
vida conturbada, sinto-me
um tanto acanhada e
até com certo receio de
lhes dizer que ainda sonho e,
por sonhar, me disponho a
lhes falar no que creio. Creio
em Deus Onipotente que
dá liberdade à gente –
cada qual faz o que quer – Por
isso eu peço e agradeço e,
por ver que não mereço, eu
digo: “Se Deus quiser...” Eu
creio na Pátria amada, nesta
terra abençoada que
um dia me viu nascer. Por
este país me inflamo e,
para mostrar que o amo, tento
cumprir meu dever. Creio
no amor à família, na
mãe que, à noite, em vigília, sussurra
doce estribilho... No
pai que trabalha tanto e
chora seu desencanto por
dar tão pouco ao seu filho. Creio,
também, no futuro e
por crer é que procuro com
otimismo viver, pois
vejo tanta esperança nos
olhos de uma criança que
teima ainda em nascer. Creio
no jovem que estuda, que
no trabalho se escuda e
enfrenta a vida a cantar. Na
velhice abandonada que
tira, ainda, do nada motivos
para sonhar. Eu
creio na liberdade e
na sincera amizade de
quem me dá seu sorriso. Que,
na justiça que almejo, no
bem que sinto e desejo está
a paz de que eu preciso. Por
tudo isso em que creio eu
luto e não titubeio se
o mundo me contradiz. A
vida só tem sentido quando
eu sonho, e não duvido, que
é por crer que eu sou feliz!
SE
EU TE CONTAR... Se
eu te contar, Senhor, quanto eu padeço por
este amor, que eu quero e que abomino, concluirás,
eu sei, que não mereço a
triste sorte que me dá o destino. Se
eu te contar, Senhor, que eu desconheço –
e por não ver razão eu me amofino – por
que pagar, meu Deus, tão alto preço sem
merecer o teu perdão divino?! Se
eu te contar, Senhor, minha tortura quando
alguém diz que o tempo tudo cura se
ao pensar nisso mais me desiludo... Tu
terás pena desta condenada se
eu te contar...Mas não vou dizer nada. Por
que contar, Senhor? Sabes de tudo!
|
| << voltar |