Membro Efetivo


Therezinha Dieguez Brisolla
Cadeira -  09
Patrono: Antônio Serralvo Sobrinho

OBRAS - SELECIONADAS


TROVAS

 

Sente, a justiça, o desgosto

do injustiçado a chorar

e tira a venda do rosto

para o seu pranto enxugar.

 

Comparo a um pano rasgado

este amor, ao qual me rendo.

Quando parece acabado,

um de nós... faz um remendo!

 

Por mais que o mundo me agrida

minha fé nunca arrefece...

Mesmo no inverno da vida

Deus manda o sol que me aquece!

 

Quando a vida se distrai

ou dá tudo ou tudo nega.

Rico... pega o carro e sai.

Pobre sai... e o carro pega!

 

São os brincos de safiras

que me deste em tempos idos,

testemunhas das mentiras

que disseste em meus ouvidos!


 

A DOAÇÃO DE ÓRGÃOS (crônica)

 

Hoje, ao passar pelo hospital, tomei a decisão que vinha protelando há meses: doei todos os meus órgãos. Ao assinar o cartão “Vale Vida” comprometi-me, em caso de morte cerebral, a doar: fígado, pâncreas, pulmões, córneas e coração. Voltei para casa feliz e, antes de comunicar o fato à família, procurei um livro que satisfizesse a minha curiosidade em relação a todos os órgãos doados. Como nunca me deram trabalho, quase nada sei deles...

Li, com atenção, a explicação detalhada sobre cada um deles e, ao terminar a leitura, fechei os olhos e meditei profundamente sobre a maravilha que é o corpo humano, máquina perfeita idealizada e criada por Deus!

Como tive a graça de ser uma pessoa saudável cheguei à conclusão que, quanto à parte “mecânica”, todos os órgãos doados estão ótimos!

De repente, a preocupação se apoderou de mim ao imaginar esses seis órgãos acostumados ao meu corpo por mais de 60 anos, em outro corpo diferente do meu!...

Como reagirá o meu fígado, já que sou abstêmia, ao sentir o gosto do álcool se for doado a alguém que aprecia a cerveja, o chopinho gelado, o uísque ou a famigerada cachaça? Pobre dele... terá cirrose, na certa!

Os rins não darão trabalho a ninguém, como não deram a mim. Imagino-os quase perfeitos.

E os pulmões? Como reagirão no corpo de um fumante inveterado?

Certamente ficarão asfixiados, tossirão pigarrentos e logo estarão doentes e imprestáveis.

Peço desculpas aos médicos que farão os transplantes, pelo descaso com que sempre tratei o pâncreas. Na verdade, nunca me lembrei dele e, por isso, nunca fiz exames para saber se sou propensa ao diabetes.

Abri os olhos e saí à janela. Entardecia...Olhei o mundo à minha volta: na rua as crianças brincavam alegremente e eu lhes ofereci o meu sorriso e a ternura do meu olhar. O ipê-amarelo, quase sem folhas e carregado de flores, encantou-me e só desviei o olhar para acompanhar o vôo de um pássaro à procura do ninho. O sol, ao esconder-se, deixou o céu todo colorido e eu fiquei à espera de que a noite chegasse de mansinho.

Olhei a lua, musa inspiradora de sonhadores e poetas... As estrelas salpicavam, com seu brilho, o manto azul da noite. Em silêncio, deslumbrada, rendi minha homenagem à mãe natureza por esse belo espetáculo!

Entristeci-me à idéia de que os meus olhos, sempre voltados para as coisas belas e simples da vida, possam ser doados a alguém materialista, alheio às belezas do universo. Seria tão bom se eles fossem dados a uma criança que, ao despertar para a vida, se acostumasse a admirar as coisas do mundo que nos proporcionam a verdadeira paz e a mais completa felicidade!

Senti o coração apreensivo e chorei!...

Coloquei a mão sobre o peito e senti as pancadas aceleradas e descompassadas do coração. Deus agraciou-me com um coração paciente, moderado, meigo, compassivo, lutador e emotivo... Um coração que se alegrou com as alegrias alheias e se entristeceu com a injustiça e a opressão aos mais fracos. Foi leal e sincero no amor. Rezou pela paz e sofreu ante a violência.

Não guardou rancor... não foi vingativo!

Ah! este velho coração de poeta, teimoso e sonhador, como me fez feliz!!! Ajoelhei-me e pedi a Deus mais uma graça, ao lhe dizer num murmúrio:

 

Senhor, quando eu partir, sei que meu coração continuará a bater alegremente como sempre fez. Que, ao ser doado, ele se aninhe no peito de alguém igual a mim, que não se envergonhe de sonhar... Que o meu coração seja colocado, com carinho, no peito de um irmão de sonhos, um poeta como eu!

Assim seja.


 

MEU CREDO

 

Nesta vida conturbada,

sinto-me um tanto acanhada

e até com certo receio

de lhes dizer que ainda sonho

e, por sonhar, me disponho

a lhes falar no que creio.

 

Creio em Deus Onipotente

que dá liberdade à gente

– cada qual faz o que quer –

Por isso eu peço e agradeço

e, por ver que não mereço,

eu digo: “Se Deus quiser...”

 

Eu creio na Pátria amada,

nesta terra abençoada

que um dia me viu nascer.

Por este país me inflamo

e, para mostrar que o amo,

tento cumprir meu dever.

Creio no amor à família,

na mãe que, à noite, em vigília,

sussurra doce estribilho...

No pai que trabalha tanto

e chora seu desencanto

por dar tão pouco ao seu filho.

 

Creio, também, no futuro

e por crer é que procuro

com otimismo viver,

pois vejo tanta esperança

nos olhos de uma criança

que teima ainda em nascer.

 

Creio no jovem que estuda,

que no trabalho se escuda

e enfrenta a vida a cantar.

Na velhice abandonada

que tira, ainda, do nada

motivos para sonhar.

 

Eu creio na liberdade

e na sincera amizade

de quem me dá seu sorriso.

Que, na justiça que almejo,

no bem que sinto e desejo

está a paz de que eu preciso.

Por tudo isso em que creio

eu luto e não titubeio

se o mundo me contradiz.

A vida só tem sentido

quando eu sonho, e não duvido,

que é por crer que eu sou feliz!

 


SE EU TE CONTAR...

 

Se eu te contar, Senhor, quanto eu padeço

por este amor, que eu quero e que abomino,

concluirás, eu sei, que não mereço

a triste sorte que me dá o destino.

 

Se eu te contar, Senhor, que eu desconheço

– e por não ver razão eu me amofino –

por que pagar, meu Deus, tão alto preço

sem merecer o teu perdão divino?!

 

Se eu te contar, Senhor, minha tortura

quando alguém diz que o tempo tudo cura

se ao pensar nisso mais me desiludo...

 

Tu terás pena desta condenada

se eu te contar...Mas não vou dizer nada.

Por que contar, Senhor? Sabes de tudo!

 


 

<< voltar