Membro Efetivo


Péricles Almeida Rocha
Cadeira -  07
Patrono: Octávio Pinheiro Brisola

OBRAS - SELECIONADAS


UMA ROSA PERFEITA

(Lembrando Dorothy Parker)

 

Era uma perfeita rosa,

então a Rosa-Maria,

de ternura perfumosa,

Rosa-Mulher, quem diria?

 

Escondida num canteiro,

junto a tantas, não sei.

A brisa que vem do outeiro

não a desfolhará, pensei.

 

Uma rosa assim perfeita,

muito de flor e mulher,

só o amor a enfeita

quando a beleza requer...

 

Rosa pois é estribilho

para compor essa trova,

e do sol recebe o brilho,

pois do orvalho que a renova.

 


 

MATER GENEROSA – A BAHIA

 

 

Ah, Bahia, vê-la de novo,

é como se fosse amá-la pela primeira vez:

Tanta alegria.

Tanto calor.

Tanto amor.

Salvador é uma fada.

Traz-nos o milagre de tudo o que tocamos:

Ouro.

Ouro das igrejas.

Ouro das tradições.

Ouro dos sentimentos generosos.

Sou um filho que volta,

depois de tanto tempo,

de tantas lutas.

Ainda há pouco era a Bahia de Chiachio in superado.

Hélio Sodré, tão poeta quanto médico.

Ramaiana De Chevalier – emprestado da Amazônia –

“mundo geogênico em perene gestação”.

Dos Mangabeiras, quanta riqueza cívica,

sabedoria, nessas vidas.

De Nestor Duarte – cepa de talento.

Prado Valadares a esculpir nas letras baianas

páginas lapidadas.

Hoje, progresso e quanto progresso

que a gente pensa:

A tradição da Bahia morreu?


Não. É uma rosa viva

de tronco anoso.      

Respeitável.

Tradicionalista.

Na minha Escola – ao Terreiro de Jesus,

o eco de aulas magníficas:

Estácio de Lima – polígrafo,

que sempre nos trazia Pedro Rego,

Arestides Novis, recitando Musset.

Fernando S. Paulo – linha dura, mas de talentos...

Leôncio Pinto – o paraninfo,

dizendo tudo sobre nada.

Bahia, Bahia, meu chão,

minha gleba,

minha gente.                    

MATER GENEROSA.

 


 

AS SETE PORTAS DA BAHIA

(Da inspiração de Carybé, o ilustrador)

 

Quem for à Bahia,

Quem a vir,

Quem a escutar,

Quem amar seus segredos,

Suas “negas”, suas “brancas”,

É Salvador, de repente,

Esta terra, esta gente,

Seus amores, o céu, o mar,

É a Bahia enfim,

De encontro marcado,

Do presente com o passado,

Mãos dadas pelo futuro.

De oxum para as coisas de amor,

De Oxalá (Senhor do Bonfim)

É o velho “Charriot” que descamba,

“Inclinado”, de cabeça para baixo,

Num golpe de capoeira,

À pastinha, o mestre Bimba ensinando

A velha arte de angola.

“E a paisagem, e a poesia

De quem é, camarada?

Ê, ê, camarada.

É de Carybé, camarada”...

Do erótico Jorge Amado?

Do cancioneiro Caymmi?

Pelas “SETE PORTAS” vamos entrar

E vamos ver as “365 igrejas

Que a Bahia tem”.

A Bahia, ê, ê, camarada,

É tua também...

 

 


 

Péricles Rocha

 

(Dedico à lembrança de meu pai, lavrador honrado,

e a todos os outros que vivem da terra.)

 

 

Um bocado de fartura num chão plantado,

Revolvido o eito ao enxadão

Que mergulha na terra úmida,

Que não se escorraça,

Que não chora,

Que não geme.

Ela está ali como coisa viva

Que não se perde.

Dá-se com ternura.

Há um idílio quieto

Entre o homem e a gleba.

Ela lhe abre o seio

Para aceitar a semente úmida está para o ato

Que faz nascer.

(Não se sabe de onde vem

esse impulso que, telúrico, se parece vivo)

As enxadas lhe sacodem as entranhas.

A semente se parte – é fecundidade.

Não chora como o filho no início de vida,

Mas cresce e revigora-se

Nos fluidos se compõe

E logo se recompõe em força

De verdade que é como o próprio sangue.

Se se parte, vitalidade escoa:

É seiva, esse fluxo de alvoroço

Que se entremostra vivo

E pronto se fortifica.

Adiante anima o braço do peão

– Sentinela indormida do plantio.

A terra convoca-o para dizer-lhe algo,

Como uma fala de ternura, e estremece.

O solo não é inércia.

Veio de longe, depois de muito tempo,

De Deus nas suas cogitações

No êxtase do gênesis.

Antes incriado e agora criatura

Para que se lhe toque com as mãos

E a faça ter sentido – logo, fecundidade.

Como o amor que cria e no tempo se alonga.

Romance que Deus criou e “viu que era bom.”

A graça nô-lo presenteou.

 


 

CANTO DE LUCAS

 

Sim, era médico, o pressuposto

porém era a Fé.

Pregação incisiva, constante.

Fê-la com sabedoria de grego

em ponto alto.

Amigo de Paulo, companheiro, até mesmo curador.

O iatros na língua possuída.

Figura convincente de condutor

das gentes, nas coisas do Cristo.

(Jesus em pessoa não conhecera.)

No entanto a doutrina em postura maior, sim.

Atendimento com ternura, humildade

no socorro da Arte.

A medicina teria um cunho de santidade.

Bom que ela siga-a para sempre.

Daí sua sagração e consagração.

Nossa convicção-Lucas (Lucano).

Nosso comum e veraz respeito: Patrono!

Terceiro evangelista seguramente

Em sua Arte a sofreguidão, a competência.

Caritas, em suma.

Pregador emérito em três línguas.

A todos para sedare dolorem

O Homem de Macedônia tido e havido

Ali estivera e conhecera a Lídia

nos batismos incessantes.

Sua Arte e quantos –

Corpus et Anima: quem sabe

vem daí a medicina psicossomática,

a gosto Jota Delay – instrutor seguro.

Fora possivelmente médico de família.

Andejo sem cansaço, sem bordão.

Peregrino na crença. A cura pelo espírito.

Arte e quantíssima Fé.

Na medicina do corpo a terapia vária.

Lição que ficou para todos os tempos...

O buril e o burel. A ciência e o respeito.

Permanência longeva. In Saint Lukes service...


 

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