Membro Efetivo


Cibele Camargo da Silva
Cadeira -  06
Patrono: Cora Coralina

OBRAS - SELECIONADAS


SÁBIO

 

Céu limpo, sem sombras de vento.

Para se esconder da piscadeira rajada,

olho na janela redonda.

Vista mentalmente, como foi, a crina do sábio

ilustrando a abóbada celeste.

Pedante ou maneiro, encontrar o alívio

após choramingar para ver o perfeito...

As plenitudes das curvas do seu lado esquerdo.

 

Fazer par durante o curso da estrada,

sem molhar a metade do alagado...,

significa a seca onde podemos dançar.

Seja como for, não nos dá nenhuma escolha...

A crina, o sábio, e a outra parte bem bolada

que dedilha seu corpo por inteiro,

nunca mostra o que sai de suas mãos.

 



PELAS RUAS DE SÃO PAULO

 

Cor pálida. Olhos piscadores,   

ofuscados pela velhice bolorenta.

Nos cartazes que rejeita com verbos floreados,

uma luta lenta.

Nas palavras doces,

os lábios envenenados.

 

Massa flutuante, tingiu de preto

a beterraba sibilante.

 

Estrutura caluda. Indício ditatorial.

Galhofa, diminui.

Embarca no canal triangular, patina na

desenvoltura, enrosca no final de cada dia,

desembarca, entorta e chia.

 

Bordão desafinado.

Blasfêmias em tons compassados

– Queima mulambos há cerca de mil anos

Congela a opinião, finta a discussão,

empilha desarranjos.

– Perde o balanço para anjos e marmanjos.

 

É de contramão:

entra no canal de lado sem bordão.

Patina a três por quatro, sem trato e afinação.

Sofre, empilha, precisa.

Pega o analista, percorre uma love story,

dá meia volta – o primeiro porre.

Com a água benta se resfria.

Falida se lamenta: foi uma ducha fria.



IN MEMORIAM À SEMPRE-VIVA VIDA

 

O mundo é um só. Tão claro, que mesmo os obtusos e possessivos se estragam ao conselho dos anos – ao exemplo de um tempo mais longínquo.

A cada fim de dia, ele nos oferece várias faces para o relacionamento diário – Uma indecisão seria fatal.

Comparativo e desgastado, substancial ou indulgente, cada um tem sua estória. Ser cuidadoso é o que nos resta.

E se lhe é claro ou não, muitas frustrações e sonhos não realizados, é que levam pessoas ao extremo

e ao absurdo. Por isso nunca desobedeceriam sua idéia, mesmo estando próximos de sua própria marcação.

Não faço caso disso, pode ser a primeira informação.

– E a Segunda? Nada está se desenvolvendo como deve, ou se desenvolve? Nós é que não sabemos acompanhar e aceitar, o desencanto e o estrago, que sem   dúvida está exposto em cada esquina, em cada movimento, e em cada gesto.

Continuar a se comover com mentiras, e se desencaminhar com idéias de revistas, ou viver em paz – não obstante ao que possa parecer, ou mesmo causar tumulto?

A vida é a arte de se conduzir negócios.

 


 

ROSAS VERMELHAS

 

Não penso em nada.

Não vejo a hora, nem o tempo

– como passa.

Cheguei a vomitar rosas vermelhas

mas não sei se vieram as folhas, nem se eram verdes.

Não sei quantos anos faz, ou quanto fez.

Só sei é que todos já estão falando inglês...,

– e eu não quero nada, não preciso de nada.

Mas eles continuam falando – e eu nem sei em que mês

estamos, e quando foi que começaram a falar.

Só sei é que continuo a vomitar.

E não são, mais, rosas vermelhas...,

são verdades e meias.

 


 

PRETÉRITO PERFEITO

 

Dois dias,

e foi armada a confusão.

 

Nem idéias estúpidas se moveram.

Nem as fortes tensões interromperam

um só pensamento.

Nem as explosões salvaram o mundo.

Só a vida justifica o fim de todos vocês.

 

Se nada se entende...,

– o amor não vem de forma fácil!

 


 

PRECIOSIDADE

 

Liberdade não rima.

O que cabe a mim dizer,

não posso porque é a pura verdade.

 

Liberdade não vinga.

Não me faz acreditar que se pode

esconder um fio de linha.

 

Liberdade é um estado de graça,

que depende do passado – da temperatura

em que mergulhamos no lago dourado.

 

Valha-me sonho,

uma preciosidade...

 

– Liberdade.


 

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