Membro Efetivo
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OBRA - SELECIONADA |
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O
POLICIAL APOSENTADO –
Como isto aqui está cheio de mato! Também, do jeito que choveu e agora
com este sol gostoso da manhã, elas, as ervas daninhas, se põem todas
para fora da terra. Ah! Olha quantos pulgões aqui hein!...Como é que
vocês não foram levados pela chuva, seus bichinhos teimosos? E estes
trevos? Quantos!... Aqui só dá mesmo é trevo. Mas nenhum de quatro
folhas. Trevo é fácil de arrancar, molinho, até gostoso. Com a mão
mesmo a gente arranca. O diabo é a tiririca... Eta praga danada!... E
cria raízes tão fundas!... ...
E continuou arrancando, arrumando, assobiando, enquanto falava tudo
isso, consigo mesmo... De
repente, sua atenção foi atraída para a calçada em frente, por onde
vinha alguém. Primeiro ouviu os passos, depois levantou os olhos e deu
com aquela menina bonita. Era a filha da vizinha, que vinha passando em
frente ao seu pequeno jardim. Mocinha bonita! É filha do falecido Rogério,
coitada. –
Mas, que coisa estranha. Alguma coisa me chamou a atenção, tocou um
alarme na minha cabeça. Alguma coisa diferente, um pouco assustadora.
Isto está me incomodando! Não consigo mais me concentrar nas plantas.
E agora não adianta mais mesmo, tenho de pensar o que foi e descobrir o
porquê deste alvoroço, senão não tenho mais sossego. Foi alguma
coisa no jeito da moça, talvez na voz... Não, não é a voz... Aí
ele escutou a mulher chamando-o e parecia que não era a primeira vez. –
Já vou, Elisa. Só vou dar mais uma podada nesta espirradeira aqui, que
está muito galhuda. Claro que eu sei que o sol está quente, pois estou
tomando ele no lombo. Espere só mais um pouco, eu não gosto de deixar
um serviço pela metade... –
Este tesourão precisa ser amolado. É duro cortar com um tesourão sem
corte deste jeito. Amanhã, se o Zé amolador passar... passar... a moça
passou... Enquanto
ia falando sozinho, maquinalmente, o pensamento não se desviava da
mocinha que havia passado... Afinal entrou em casa para almoçar,
atendendo à mulher que estava cansada de chamá-lo. –
Não sei por que você faz uma comida tão gostosa, Lisa, já que não
quer que eu engorde. –
Não quero não, você ouviu bem o que o médico disse: você não pode
engordar que faz mal para a coluna e o seu coração. Não pode deixar
crescer mais essa barriguinha, senão a sua saúde... –
Quando eu estava na ativa eu não tinha barriga não. Trinta anos caçando
marginal não dá para criar barriga, como agora, aposentado. Ainda bem
que existe o jardim e de vez em quando um pulinho lá na delegacia,
bater um papo com a turma, dar uns palpites, quando me pedem. Até que
eu tenho dado bons palpites. Daqueles casos não solucionados lá do
arquivo, dois acabaram sendo resolvidos graças aos palpites que eu dei,
abrindo novas pistas. O fato é que a gente nunca deixa de ser policial;
a cabeça da gente não sabe da aposentadoria e continua sempre
funcionando como cabeça de policial. Depois,
já calado, continuava pensando. –
O caso do Rogério. Hoje é esse que está na minha cabeça. E não é
um caso a ser resolvido; ao contrário, é um caso já liquidado, todo
certinho, solucionado, acabado. Por que então isto está me incomodando
tanto? Será só porque vi a filha dele, depois de alguns anos? Mas eu já
a tinha visto outras vezes. Mas, o que foi que eu vi, desta vez que não
consigo definir... Eu sei, eu vi... –
O que foi, Elisa? O telefone? Já vou atender. –
Tá certo. Assino sim. Depois eu passo aí e pago. Tá bom. Té mais
tarde. Outro abraço a todos. –
Foi lá da Delegacia, Lisa. Estavam querendo saber se eu ainda quero
assinar a lista anual para a compra de presentes de Natal para os filhos
dos serventes. Eu sei que ainda é cedo, mas eles gostam de saber com
quanto vão poder contar, quando chegar a hora. Apesar
de Lisa ter dito que o sol estava muito quente para ele sair assim, logo
depois do almoço, ele foi, como sempre, pois era muito teimoso. Também,
ela falava por falar porque vivendo casada como ela há mais de trinta
anos devia bem saber que tipo de velho turrão ele era, isso desde
quando era bem mais moço. E ela conhecia bem os sintomas: ele devia
estar com alguma coisa na cabeça, matutando. Enquanto ele não
acertasse isso, fosse o que fosse, era assim mesmo: ouvia mas não
escutava, era como sempre ela dizia. –
Olá, seu Pedro! Não precisava vir tão depressa; afinal o seu crédito
continua firme com a turma. –
Não é só por isso não que eu vim. É que eu estou com uma idéia,
uma lembrança, uma coisa qualquer me incomodando aqui dentro da minha
cabeça que eu não consigo lembrar direito, definir o que seja... –
Pois então fale, homem. Afinal suas idéias têm ajudado muito a gente.
O que é? Algum dos arquivados aqui da delegacia? –
Não, não é nada disso. É só uma cisma aqui comigo mesmo. Alguma
coisa estranha, alguma lembrança... Você se lembra do Rogério? –
Claro! Como é que a gente ia esquecer uma coisa tão triste como
aquela? Soube que a viúva dele voltou e está morando aqui outra vez,
depois de tantos anos... –
Dezessete anos! E está morando lá perto de casa. Hoje eu vi a menina,
mocinha já. Você ainda se lembra como foi que tudo aconteceu? –
Lembro sim. Eu estava de serviço, junto com o senhor, naquela noite
desgraçada. Ainda era novato, mas o senhor me puxava mesmo. –
E foi bom, né? Não está você aí promovido tantas vezes, agora
sentado aí na minha cadeira, no meu antigo lugar? –
É verdade, foi mesmo muito bom. –
Então vamos ver se você ainda é bom no relatório. Conte tudo como se
fosse no dia seguinte e seu chefe, sem saber ainda de nada. –
Mas, era o senhor o meu chefe e estava junto! –
Ora, faz de conta, homem! Quantas vezes temos partido do faz de conta e
temos chegado a uma certeza? –
Bom, chegando na casa do Rogério, depois de atender o telefonema aflito
da mulher dele pedindo para a gente ir lá e falando coisas sem nexo,
demos com o Rogério estendido na cozinha, sangrando ainda, com um tiro
nas costas, que foi varar o coração (isto ficamos sabendo depois,
porque o médico legista falou). Ele estava vestido ainda com a capa,
pois tinha sido uma dessas noites de chuva fina, sem parar. A dona...
como é mesmo... é... dona Dirce, isto mesmo, era esse o nome da mulher
do Rogério, não é? –
É, é esse o nome
dela... –
Ela, com aquele barrigão imenso, chorava, urrava, gritava sem parar
dizendo que tinha matado o marido dela e que queria morrer ela também.
Depois foi aquela confusão toda, gente chegando, o pessoal da polícia,
fotógrafos da polícia e dos jornais, repórteres e ela sendo levada
para o hospital às pressas e dali a duas horas o nenê nasceu, meio
prematuro, forçado pelas circunstâncias. Ninguém pensou que fosse
viver mas viveu e hoje está uma bela mocinha, não foi o que o senhor
disse? Quando dona Dirce pôde falar, ela explicou que o Rogério antes
de sair naquela noite, recomendou que ela tivesse cuidado e que ele ia
com os colegas dar uma batida atrás de uns ladrões que rondavam as
casas e viam quando o marido saía e deixava a mulher sozinha. Que ela
usasse o revólver se ouvisse algum barulho suspeito ou alguém entrando
na casa. Depois
que ele saiu, ela ficou ouvindo uns discos, depois leu um pouquinho e
foi dormir. Despertou de repente, com um barulho de gente andando na
cozinha. Pegou o revólver que Rogério tinha deixado na mesinha de
cabeceira. Ao dar com aquele homem, de capa, de costas para ela, não
teve dúvida, atirou. Nem tinha a intenção de matar; era apenas para
assustar o sujeito, para que ele fosse embora. Quando ele caiu, bateu no
canto da mesa e virou de lado; então ela viu: era Rogério, o seu
marido. Ficou louca de remorso e angústia, ante o pensamento de que
poderia tê-lo matado. Sentia o horror de talvez ter matado o seu
marido, com quem estava casada havia apenas sete meses. Quando chamou a
polícia, não foi muito conscientemente, foi apenas porque aqueles eram
os seus amigos, os amigos do seu marido. As investigações comprovaram
a declaração dela, inclusive que ele não havia saído com a capa, de
casa naquela noite, pois ele havia esquecido a capa na delegacia e todos
ainda se lembravam de que antes de sair para a diligência, ele havia
ido pegar a capa que estava pendurada no armário dele. –
Então está aí, seu Pedro, tudo certinho, não está? –
É... é, mas tem alguma coisa que não bate, que ainda me incomoda, me
inquieta. Eu sinto que existe alguma coisa errada nisso tudo... De
repente ele saiu apressado, rumo ao porão do arquivo morto, onde
ficavam os processos resolvidos e abriu uma pasta com o título:
“Diversos” e mais abaixo, a anotação: “Rascunhos do seu
Pedro”. Levou
com ele para casa, leu, releu e foi tirar uma soneca antes do
jantar, achando que havia sido inútil o seu trabalho, pois não
encontrou nada que o esclarecesse, nas anotações. Na
cama, antes de dormir, ficou se lembrando de alguma coisa nos olhos de
dona Dirce, na única vez em que ela falou com ele e o encarou de
frente. Foi esse olhar que fez funcionar um sinalzinho de alarme em sua
mente: não havia nos olhos dela a amargura e o desespero que ela tanto
queria demonstrar. Os olhos eram duros, frios, não refletiam nem mágoa
nem desespero. Ele conhecia bem olhares de desesperados e
magoados e também injustiçados; na sua profissão e ao longo da
vida ele já tinha visto muitos. E tinha sido por causa disso que ele
fez questão de investigar a vida dela inteira, desde o nascimento.
Havia feito isso por sua própria conta, sem contar nada a ninguém. Até
porque pareceria maldade, perseguição e haviam de censurá-lo e também
caçoariam de seu “sinal de alarme”, embora ele muitas vezes tivesse
funcionado para resolver crimes que aparentemente não tinham solução. Afinal,
Dirce havia sido uma criança normal, exceto pelo fato de ser muito
medrosa e nunca enfrentar as conseqüências de suas artes de criança.
Segundo a mãe lhe contara, ela sempre dava um jeito de escapar dos sermões
e dos castigos do pai, empurrando sempre a culpa para os irmãos, tão
traquinas quanto ela. Quando
mocinha, teve vários namoradinhos sem importância, até que surgiu
Cristóvão, moço bonito, bem falante, muito mais bonito que Rogério,
que era um tipo comum. Cristóvão tinha sido amigo de Rogério e também
seu colega na polícia. Seu
Pedro lembrava-se bem de Cristóvão. Era um rapaz bem bonito, mas tinha
um nariz um tanto grande, bem feito e tinha o costume de ficar passando
a ponta do dedo indicador da mão direita na ponta do nariz, para lá e
para cá, sempre que estava com as mãos desocupadas. Depois
que desmanchou o namoro com Dirce e que ela, por sua vez, começou a
namorar Rogério, Cristóvão foi para São Paulo, para fazer um curso
na escola da polícia e acabou ficando por lá. Depois ficaram sabendo
que ele havia morrido, baleado por um marido feio e ciumento. Nesse
ponto de suas lembranças, Pedro adormeceu afinal... –
Pedro! Pedro! Acorde, seu preguiçoso. Já está na hora do seu banho. Vá
logo que eu já vou começar a preparar a janta. Pedro
acordou com muito custo, meio estremunhado, lembrando dos seus
pensamentos e lembranças na hora de adormecer, sem saber mesmo o que
era lembrança, o que era pensamento e o que era sonho. Sabia que estava
pensando na morte do Rogério, lembrando do moço bonito que tinha sido
Cristóvão, de seu costume de acariciar a ponta do nariz... Daí
lembrou de tudo! Ficou claro como água! –
Lisa, Lisa, já sei, ah!, agora eu sei de verdade como foi que tudo
aconteceu, tudo se encaixa como num quebra-cabeça. A mocinha, a mocinha
que passou e falou “Bom dia”, Lisa, ela... ela sorriu e passou o
dedo indicador pela ponta do nariz, um lindo nariz, um tanto grande,
para lá e para cá... Igualzinho ao Cristóvão!...
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