Membro Efetivo


Joaquim Simões Filho
Cadeira -  04
Patrono: Rodrigues de Abreu

OBRAS - SELECIONADAS


VIDA EM VERSOS

 

A Rodrigues de Abreu, pelo centenário

de seu nascimento.

 

O NASCER

 

Benedito Luiz Rodrigues de Abreu

verteste do bucolismo rural

entre montes, árvores e riachos,

no abraço ameno de Capivari,

placenta social de teu nascer.

A primavera envolveu-te em poesia

na justaposição de dois e sete;

gritaste o primeiro choro em setembro,

mil, oitocentos e noventa e sete.

Nasceste de Narciso e de Leonor,

e tendo sido um entre três rebentos.

Se Agatângelo foi o irmão do peito,

Anésia foi o anjo de tua alma,

irmã que cantaste em versos sentidos

que te guardou quando “chupado e doente”.

 


O CRESCER E O VIVER

 

Tu firmaste teus primeiros fonemas

em folhas brancas de Piracicaba.

Entre as mãos pueris puseram-te a Cruz,

ofertando-te a vocação de Cristo

para o abraço da vida missionária.

Iniciaste a procura em São Paulo;

procuraste te encontrar em Lorena;

foi na mineira Cachoeira do Campo

que tu foste te dar à vocação:

a poesia a brotar era tua Cruz.

Voltaste a São Paulo a ganhar a vida,

deixaste o giz do Liceu Salesiano,

tornaste a Capivari em dezoito.

Tua poesia ganha o lume da imprensa,

teu coração sangra – morre tua mãe.

Levam-te a São Paulo as asas sutis

de trama política de tua terra.

Pôs-te o destino em teu caminho errante

as mãos amigas de Celso Almeida.

Trouxe-te a Bauru, tua terra de espantos,

trazias no peito a marca da morte,

o tísico alfanje a te fazer sombra.

 

 

 

             AS OBRAS, O ADEUS

 

A luz que brilha no grande poeta

jamais se encarcera à estética do homem.

Abreu, foste romântico de berço,

cantaste nas sombras do “mal-do-século”,

entre açoites do sincretismo estético,

sob gritos da vanguarda européia,

sofreste em luta a modelar teu canto.

“Noturnos” – os teus primeiros cantos.

Tomaste Bilac como teu Mestre,

mas o coração turvou-te a razão.

Tua emoção era a tinta da pena

e teus sonetos jorravam tua alma.

Sentiste o açoite da estética nova,

lançaste teu “Noturnos” entre chamas,

mas já espalhara o vento teus versos.

Sala dos Passos Perdidos – livro

em que iniciavas sem metro e sem rima:

cantavas “O Écran “com gritos modernos.

Faz-se presente a névoa simbolista;

abriste a “Sala dos Passos Perdidos”,

gritando um decassílabo perfeito:

“A VIDA é um templo de maçonaria”;

e assim querias tomar novos rumos,

        com Bilac a se inserir entre brumas,

        e o Modernismo a se fazer presente.

        Em “Folhas” demonstraste o garimpar:  

        “espero, mais ditoso, outra colheita..”;

        cobre os passos a presença de Cristo

        e viveste a infância, a saudade e a morte.

        “Casa Destelhada” – teu próprio ser!

        Procuravas dar-te a tua expressão

        e vagavas entre a forma e a temática,

        como acontece no poema “São Paulo”.

        Tua alma tísica sofria açoites,

        quando te encontravas contigo mesmo.

 

        Abreu, penas variadas te saudaram:

        Bandeira, Del Pichia e Plínio Salgado,

        entre tantas mais letras eloqüentes.

        Abreu, se foste o romântico eterno,

       cantando Capivari – o teu berço;

       não esqueceste São Paulo – tua sina.

       Encontraste tua paz na “terra  branca”,

       mostraste moderno ao cantar “Bauru”,

       poema a encalhar “Rolls-Royces” na areia,

       cantaste Bauru – “Cidade de Espantos”!

 

       No crepúsculo do século vinte,

       no centenário de teu nascer, és

       patrono da cadeira que me tem,

       honrando a Academia de Bauru.

       Estás tu presente entre tantas almas,

       que se encantam com teu cantar sofrido.

       Vives em nós com teus versos sensíveis

       e te louvamos, “Poeta de Espantos”!

 


 

PROPOSIÇÃO

 

Vou cantar minhas raízes:

cantarei íntimas flores,

nas pedras eu cuspirei;

declamarei meus amores,

as luzes exaltarei!

 

Vou cantar minhas raízes:

jogarei bolas de gude,

do primário falarei;

direi do dedo paterno,

minhas rezas rezarei!

Cantarei nossos costumes,

no adolescer de menino;

falarei do amor primeiro,

e do amor do travesseiro!

Cantarei os ideais

e o sonhar do alvorecer;

falarei de amigos mudos,

no lutar para vencer!

Cantarei as sujidades

das tramas do humano ser;

falarei das fantasias,

na pureza do viver!

Cantarei o sacramento

e as brasas d’almas em flor,

dos ramos eu falarei,

a florir no altar do amor!

Vou cantar minhas raízes:

cantarei minha cidade

suas riquezas exaltarei;

firmarei suas memórias

nas liras da minha pena!

Cantarei a terra branca,

que um dia me adotou;

por favor, plantem na areia,

a madeira do meu corpo,

mi’a morada derradeira!

 


 

A SEMENTE

 

Homenagem à Academia Bauruense de Letras, ainda uma idéia – julho de 1992.

 

Quem sou eu?

Sou a semente de Academus,

colhida do bosque da Praça do Rui,

extraída das raízes do velho flamboyant,

árvore a testemunhar a história,

a doar sombras e flores.

Sou a semente conduzida,

ponto a convergir olhos da viva pena,

centro do círculo da Arte codificada,

a ocupar o rico espaço do tempo:

Automóvel Clube – arte preservada.

 

Sou o tesouro impotencial da esperança,

suplicando o sopro de vida das diretrizes,

artigos formalizados e inertes.

Quem serei eu?

Talvez uma semente lançada sobre pedras,

escaldante esquife de sonhos não vividos.

Talvez uma semente lançada entre espinhos,

garras a sufocar o meu crescer,

sem dar flores, sem dar frutos.

Talvez uma semente lançada sob o húmus,

terra branca a regar meu canto.

Ser a germinar no coração comunitário,

abrindo horizontes às imagens codificadas,

a conduzir jovens artífices da pena,

a enaltecer os horizontes das palavras,

a dignificar as letras sepultadas,

a dar vida à mente, a florir o espírito.

O que fazer?

Olhem por mim, olhos de luzes.

Orem por mim, dê-me sua mão.

 


 

A DOR DAS DORES

 

Ao terminar este poema  e ao lê-lo como

primeiro leitor, eu chorei por fora pela

primeira vez e sangrei por dentro mais uma vez.

 

Há uma dor que queima

sem ter chamas.

Há uma dor que fere

sem sangrar.

Há uma dor que faz chorar

sem verter lágrimas.

  uma dor que faz gritar

em profundo silêncio.

Há uma dor que parece que vai

sem nunca nos deixar,

deixando raízes numa

cicatriz profunda e inviolável.

Não é a dor da perda do capital.

Não é a dor da perda do amigo-leal.

Não é a dor da perda da mulher-amante.

 

É a dor da perda da mulher-luz,

que nos verteu prá vida entre risos e dor.

É a dor da perda da mulher-árvore,

que nos deu da seiva prá nos ver crescer.

É a dor da perda da mulher-santa,

que orou em silêncio em nossa lida.

É a dor mórbida da morte da amada MÃE.

 



CORAÇÃO EXANGUE

Escrito na sala de espera de uma clínica cardiológica.

 

Por que tomar meu coração?

Ele já está cansado, alma travessa,

com hipertrofia no ventrículo esquerdo.

 

Por que tomar meu coração?

Se injetares a lava da paixão,

fazendo-o bater loucamente,

a frustração provocaria um infarto.

Não esperes sonhar sobre o Sena,

talvez te sobrem algumas safenas

dos amores que sonhei e não vivi.

 

Então, por que tomar meu coração?

Se o fizeres – faça-o como quem

cuida da jardineira florida

no silêncio da paz do campo.

Mas – não esqueças do bisturi.

 

 

 

<< voltar