Membro Efetivo


Celina Lourdes Alves Neves

Cadeira - 01

Patrono: Carlos Fernandes de Paiva

OBRAS - SELECIONADAS


CONTOS DE NINAR...

GENTE GRANDE.

 

(Extraído da coluna “Bom dia, Bauru!”,

do Jornal da Cidade de 17.8.1980)

 

 

Alguém disse ao homem: “Plante uma árvore, escreva um livro, seja pai”. Ele obedeceu.

Vieram os tempos, a árvore foi cortada para a instalação de uma usina nuclear, cujos resíduos contaminou a atmosfera, o ar ficou rarefeito e dizimou populações. Nas cidades, veio o asfalto e o cimento nos quintais “fáceis de manejar”, porque a vida exigia que a mulher saísse de casa para trabalhar fora e contribuísse para o sustento do lar... e não podia plantar mais rosas, nem delas cuidar. Faltava-lhe tempo.

E o homem aceitou sem protestar, por causa dos  interesses...

Aí ele escreveu o livro que foi proibido porque o acusaram de “pensar”, de ter idéias avançadas. No livro, ele pedia revisão de sistemas e paz. Por causa do seu livro, foi preso, perseguido, surrado... E calou-se, porque os interesses pediam...

E o homem foi pai do filho que lhe pediam: era preciso povoar sertões e dar soldados para defender fronteiras. O filho que não morreu na guerra, enveredou pelos vícios, levado pela sociedade em que vivia... O homem aceitou tudo sem protestar...

O mundo da comunicação ficou perguntando: quem foi o culpado? É claro que acharam muitos bodes expiatórios, principalmente aqueles que não podiam defender-se. Mas e o verdadeiro culpado?

Quem, senão o próprio homem? Quem, senão ele, que não se defendeu em tempo do machado do lenhador? Quem, senão ele, que não ergueu a voz e se defendeu da injustiça e calou-se, quando sofreu e viu seus semelhantes sofrerem? Quem, senão ele, que ficou alheio ao sofrimento dos que o rodeavam, com medo de se comprometer? Ele mesmo, que não participou da vida da sua comunidade, por medo e comodismo.

Quem, senão ele, que não gritou contra a injustiça da fome e da miséria, que deixou de proclamar verdades que sabia existirem, porque teve medo e só pensou em interesses políticos e pessoais?

Quem, senão ele, que aderiu ao consumismo e massificou-se, tornando-se um seguidor fiel da moda, do luxo e da vaidade, por mais absurdo que isso lhe parecesse?

Vivendo num mundo cristão, cercado de avisos por todos os lados, que lhe pediam para construir um mundo de paz, trabalho, justiça, amor, confiança e concórdia, esqueceu-se de uma simples palavra: fraternidade.

Gastou, sem poder, endividou-se, faltou com a palavra, mentiu, matou, roubou, perseguiu, acusou, enganou, trapaceou, iludiu, desonrou, desrespeitou em favor de futilidades...

Quem, senão o homem que, cansado das coisas normais da vida, encaminhou-se para as perigosas altas velocidades, altos negócios, audaciosos, agressivos, mas que lhe deram destaque? De coração vazio, tudo que fez foi em vão.

No redemoinho da vida, foi envolvido sem ter um apoio seguro, uma fé inquebrantável que lhe renovasse as forças a cada passo para prosseguir... Sua única fé era a ambição desmedida.

Plantou uma árvore e dela não cuidou com o carinho que merecia; escreveu um livro, sem lhe defender as idéias firmes e seguras e educou seu filho, baseado na educação da sociedade festiva que vivia... Não protestou enquanto era tempo e tornou-se vítima da própria fraqueza. Com a sua aquiescência, ajudou o mal e a destruição...

E o mundo da Comunicação ficou perguntando sociologicamente, psicologicamente, curiosamente: por que será que tudo isso aconteceu?


COISAS DE QUE EU NÃO GOSTO

 

(Extraído da coluna “Bom dia, Bauru!”,

 do Jornal da Cidade de 07.10.1982)

 

                             

Ninguém gosta de gente falsa. Eu também não gosto.

Eu não gosto de oba-oba ou crista de onda. Bauru não tem mar.

Na minha coluna de 5 do corrente, falei que, após a minha morte, talvez receba nome num recanto, numa rua, numa praça, pelos supostos “serviços prestados” à comunidade. Então vou querer que o programa seja completo: serestas, declamações, teatro, enfim, local de cultura. Mas, sem oba-oba.

Tudo tem de ser natural, como o dia-a-dia da vida. Como o amanhecer, o anoitecer, como o fluir da água no regato, todo mundo se vestindo à vontade, de chinelos, sem nenhuma formalidade. Mas, todo mundo inteligente, prestativo.

Nada de “vamos à praça, ou à rua ou ao recanto, porque é elegante, é sinônimo de cultura porque tal artista está expondo lá”, “é a coqueluche do momento”, como se o local fosse a abertura de uma lanchonete, pizzaria, restaurante ou churrascaria da moda. Nada de badalações ou muito vip. A coisa deve ser permanente, sem atropelos ou colunas sociais a não ser que o colunista goste e entenda de verdade do assunto.

Eu disse que, no local, deve haver teatro também. Deve mesmo. Mas, quem o fizer deve “gostar” de teatro e o “faça” continuamente, de verdade, não que “esteve tentando, mas não deu certo”, ou porque não recebeu “incentivos” governamentais, como se o Governo tivesse de patrocinar todas as “loucuras” da gente...

Também não quero gente que se “empolgou” porque este ou aquele artista tenha visitado a cidade e o seu espetáculo esteve “assim” de gente, ou porque representantes bauruenses tenham vencido lá fora. Venceram porque lutaram e enfrentaram o peso da barra... Lute também.

Eu não gosto de políticos vaidosos ou briguentos.

O vaidoso, geralmente, omite o mérito dos outros. Distraidamente, como quem não quer, como quem não entende, como quem esquece, vai ferindo, dando alfinetadas, citando assuntos lembrados pelo lado negativo, nunca pelo positivo, para dar mérito à coisa. O briguento pensa que é dono da rinha e fala como se fosse a vitória, incontestavelmente dele, esquecendo-se do sufrágio popular.

Eu não gosto que a minha coluna de domingo saia quase no rodapé da página, “porque não houve espaço” e com tipos micros, que é preciso ser lidos com uma lupa... Esta briga é com o Claudionor.

Eu não gosto de que o Governo aumente as taxas de luz e telefone, não porque eu seja candidata e isso vai prejudicar-me, não. É porque eu não tenho o dinheiro que ele pensa que o povo tem, quando sobe as taxas de serviços de utilidade pública, constantemente. Se o telefone é de utilidade pública, deve ser usado de acordo com as necessidades e ser barato.

Não nos interessa que a Telesp criou um departamento de historinhas infantis, ou piadinhas do Costinha, que, no final das contas, custam Cr$ 8,00 cada impulso... Para os ricos e poderosos não é nada, mas quem labuta e conta os tostões para pagar as contas, é muita coisa.

Quanto à luz temos energia suficiente, pelo menos até o ano 2000, para podermos utilizá-la sem grandes aumentos, pois nossas cachoeiras e rios foram doados por Deus, produzindo as toneladas de metros cúbico de água. Energia nuclear ainda não é preciso, de imediato, e eu não estou disposta a sofrer por ela. Preciso viver e respirar sem a sobrecarga dessas taxas abusivas que tiram o meu sossego e o de muita gente.

O mundo não vai mudar, porque eu não gosto disto ou daquilo, mas como estamos entrando numa ERA DEMOCRÁTICA, tenho o direito de dizer que “há coisas de que eu não gosto”.


POESIA E... LÁGRIMAS

 

(Extraído da coluna “Bom dia, Bauru!”,

 do Jornal da Cidade de 12.11.1983)

 

 

Na sua caminhada para o Sul, sob o céu umbroso de inverno, o ônibus, em conluio com os viajantes, esticou o lençol do dia enquanto pôde, mas depois, não agüentando mais a pressão, o elástico arrebentou e o manto da noite desceu de repente com todo o seu negror, envolvendo-nos no seu misterioso véu... Isto a caminho de Curitiba, onde chegamos de manhãzinha com chuva, e, 14 dias depois, saímos com inverno e chuva novamente, em plena primavera. Já estávamos a 24 de setembro... Na volta, à medida em que o ônibus rodava para o Norte, o céu clareava, íamos fazendo o “streep-tease” das roupas de lã usadas pela manhã e uma noite quente, gostosa, de claro luar do sertão, penetrava pelas janelas, dando-nos uma sensação de segurança, apesar dos estragos da estrada de rodagem, que impunham cuidados mil ao motorista do automóvel. Confiando, se dorme em paz. Em Siqueira Campos, fomos avisados do desarranjo de uma peça importante, o que causou o atraso para comunicação com a oficina chefe. Remendos de emergência foram feitos e ei-nos em Sto Antonio da Platina, onde fomos convidados a trocar de veículo. Só não encontrei poesia foi na rodoviária de Marília, que me perdoem os marilienses. Muito tétrico o seu aspecto, para quem viaja sozinha ä noite, com bagagem e encontrando íngreme escada pela frente...

Viajando para Curitiba, fomos em busca dos netos de lá e, agora, voltávamos ansiosa procurando os netos de cá. Visitamos dois galantes meninozinhos que esperavam sua avó, para terem mais oportunidade de fazer “artes” que irritam a mãe – por que não dizer – as próprias avós também porque “no meu tempo havia mais disciplina na educação das crianças”. “Hoje são muito cheias de vontades”, falamos nós, mimando-as também.

As crianças em tenra idade sempre encontram oportunidades de demonstrar “grandes” e “novos” “conhecimentos”, enriquecidos pela sua fértil imaginação. Nisso, são ricas em criatividade e fantasias, como subir no espaldar de uma cadeira mais alta e de lá pular no chão, sem medo e sem atender aos avisos de nós outros, e sair com um belíssimo “galo” que o médico tranqüiliza dizendo que o ferimento “é superficial e sem importância”. Machucam-se, mas realizam aquilo que empreenderam. Aliás, isso acontece com muita gente grande também. Machucam-se e repetem os erros.

Saindo das coisas amenas e poéticas, vamos falar das coisas tristes agora. Morreu Gasparini, prefeito da cidade de Bauru. Foi chorado pelos amigos, pelos correligionários e pelos que, mesmo não sendo correligionários, o respeitavam como homem, cidadão e chefe de família exemplar, além de bom cristão, em nome de cuja filosofia ajudava muita gente, motivo por que grande parte da população chorou a sua morte. Há os que dizem que não devia ter-se candidatado estando enfermo, do que discordo, pois o soldado deve morrer lutando, porque ninguém tem a vida no seguro e o mal que o vitimou é tão traiçoeiro que muita gente é portadora dele, sem o saber. Mesmo as moléstias cardíacas não escolhem idade, condição social, cor ou credo político, para levar seus eleitos. E os desastres repentinos, que levam uma juventude de escol e, infelizmente, descuidada no manejo de motos ou automóveis? Um dia destes, estou dentro de minha casa, ouço ruído de batida de automóvel, vou correndo ao portão e me desespero, porque na “esquina do pecado”, outro desastre pelo descuido e a pressa, dizendo-se que ficaram feridas 15 pessoas envolvidas nele, ali na rua Gérson França, esquina com a 15 de Novembro.

Quantos aposentados, felizes porque venceram um tempo enorme de serviço, ao ficar inativos, morrem repentinamente? Vamos continuar, mesmo que não nos sintamos bem, enquanto pudermos. Vamos trabalhar e lutar. Pelo menos morreremos de pé, fazendo parte do batalhão sofredor dos vivos... procurando ajudar e sermos úteis ao próximo.

 

 

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