Membros Correspondentes

Raquel Maria Carvalho Naveira - Campo Grande/MG


Raquel Naveira nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 23 de setembro de 1957.

Professora do curso de Letras da Universidade Católica Dom Bosco, onde ministra aulas de Literatura Brasileira e Literatura Latina.

Escreveu vários livros entre eles: Abadia (Poemas – Editora Imago, indicado para o prêmio Jabuti de Poesia/96) e Casa de tecla (Poemas – Editora Escrituras).  

Seu romanceiro Caraguatá, ilustrado por Poty Lazarotto, foi transformado no curta-metragem Cobrindo o céu de sombra, direção de Célio Grandes, com a atriz Christiane Tricerri.


 DOM SEBASTIÃO

 

Dom Sebastião,

Rei,

Monge,

Cavaleiro

De meu distante Portugal;

Dizem que morreste em Alcácer-Quibir,

Desapareceste na floresta tórrida,

Montado num elefante

Ajaezado de púrpura,

A cruz de prata no peito.

 

O sultão marroquino

Fez de mim escrava,

Senhor absoluto,

Vivo sobre seu domínio.

 

À minha volta

As tamareiras se erguem,

Ácidas,

Tiro resina das acácias;

Fora das muralhas do palácio

Há rinocerontes,

Gorilas,

Búfalos negros

 

E avestruzes gigantes;

No grande platô,

Pigmeus

Escondem-se entre folhas de palmeiras;

Por toda parte, o perigo,

O mouro,

A ambição de marfim.

Não morreste,

Bravo Dom Sebastião,

Virás salvar-me,

Libertar-me do sultão,

Do soberano Mal;

Nas asas da Arte,

Pelo oceano da Poesia

Regressaremos juntos

Às fontes,

Às raízes,

À glória de Portugal.

 


ROSALÍA

 

(Em homenagem à poetisa Rosalía de Castro, de Santiago de Compostela)

 

 

Rosalía,

Vestida de negro,

Caminha pelo vale,

Sombra entre os pinos angulosos

E os gritos das aves

Nas avelaneiras.

 

Coração carregado de terrores secretos,

Rosto abatido,

             Mãos trêmulas como ervas,
             Caminha rumo a Santiago,

No prumo da perfeição.

Passa por bosques,

Ribeiras,

Atravessa a tempestade,

A neblina espessa,

Nuvem ligeira

Que caminha.

 

Ao longe,

Ouve os sinos da igreja,

Que fazem chorar,

Rezar soluços,

Lembra-se de Tiago,

O pescador,

O apóstolo

Passado a fio de espada,

A tristeza come-lhe as entranhas.

 

É preciso chegar a Compostela,

Ao abrigo,

Peregrina que foge de si mesma

E se rebela.

É preciso aplacar a raiva,

Depor a foice

De quem faz justiça com as próprias mãos.


             Chove pelo caminho,

Amarfanha-se o vestido,

O negror penetra a pele:

Onde a cantiga galega

Ao pé das fontes e arroios?

Onde os ramos de açucenas nos muros?

Onde os rosais floridos?

Tudo seca,

Tudo morre.

 

Rosalía,

Estrela negra,

Embrenhou-se

Na Via Láctea.


CARTEIRO

 

Lá vem o carteiro

Vestido de azul e amarelo

Sobre a bicicleta

Impulsionada pelo vento,

Há nele algo do deus Mercúrio,

Imagino de repente

Pequenas asas em sua cabeça,

A túnica sobre o braço,

A bolsa cheia de mensagens.

 

Vem, carteiro,

Artesão de sonhos,

Força germinativa

De quem porta idéias,

Ordens,

Fortuna.

 

Vem, com tua carga preciosa,

Arfa meu coração

Enquanto espero que me does teus bens

Em forma de palavras,

Letras

E promessas.

 

Vem, só tu sabes,
                  Astucioso arauto,

Quão grande é meu espírito de combate,

Eu que escrevo cartas,

Cartas,

 Muitas cartas

Que voam

Como borboletas.

 

Só tu calculas minha audácia

De caminhar por estradas cheias de riscos

E atravessar mares de espumas.

Como tu, escuto atrás das portas,

Ligo antenas

Pelas vias do pensamento

E da comunicação.

 

Vem, carteiro,

Companheiro,

Despeja sobre meu peito

Um outono de folhas

Prensadas da esperança.

 

Vem, carteiro,

Elo entre mim e o mundo,

Prisioneira solitária

De uma ilha escura.

 

Vem, carteiro,

Vem hoje,

Amanhã,

Sempre,

Vem, até o último dia,

Quando, exausta,

Consumida de amor,

Conduzirás minha alma até a região dos mortos

Onde conhecerei face a face

Todos os homens e anjos

A quem enviei cartas.

 


ESCADARIA DE JADE

 

(Em homenagem ao  livro Escadaria de Jade – Antologia de poesia chinesa – século XII - século XIII – tradução de A. B. Mendes Cadaxa)

 

Debrucei-me sobre textos chineses:

Poemas finos

Como brotos de arroz

E melancólicos
                   Como salgueiros;

Era como se estivesse às margens de um rio

Coberto de lótus,

Recheado de serpentes aquáticas

E tartarugas brancas;

O perfume que me envolvia

Vinha do sândalo

E das caneleiras;

O tom da tarde

Era o rosa de uma begônia.

 

Comecei a imaginar objetos de jade:

Estatuetas,

Cabos de armas,

Flautas,

Pratos,

Harpas

E uma escadaria,

Uma imensa escadaria,

Subi,

Vestida num quimono brocado,

Os pés apertados em faixas,

A face de porcelana,

Subi lentamente


Até alcançar o topo,

A paisagem verde-jade do vazio,

Onde assisti ao naufrágio

De tantas das minhas esperanças.

 

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