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Membros Correspondentes Raquel Maria Carvalho Naveira - Campo Grande/MG
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Escreveu
vários livros entre eles: Abadia
(Poemas – Editora Imago, indicado para o prêmio Jabuti de Poesia/96) e Casa de tecla (Poemas – Editora Escrituras). Seu
romanceiro Caraguatá, ilustrado
por Poty Lazarotto, foi transformado no curta-metragem Cobrindo
o céu de sombra, direção de Célio Grandes, com a atriz Christiane
Tricerri. DOM
SEBASTIÃO Dom
Sebastião, Rei, Monge, Cavaleiro De
meu distante Portugal; Dizem
que morreste em Alcácer-Quibir, Desapareceste
na floresta tórrida, Montado
num elefante Ajaezado
de púrpura, A
cruz de prata no peito. O
sultão marroquino Fez
de mim escrava, Senhor
absoluto, Vivo
sobre seu domínio. À
minha volta As
tamareiras se erguem, Ácidas, Tiro
resina das acácias; Fora
das muralhas do palácio Há
rinocerontes, Gorilas, Búfalos
negros E
avestruzes gigantes; No
grande platô, Pigmeus Escondem-se
entre folhas de palmeiras; Por
toda parte, o perigo, O
mouro, A
ambição de marfim. Não
morreste, Bravo
Dom Sebastião, Virás
salvar-me, Libertar-me
do sultão, Do
soberano Mal; Nas
asas da Arte, Pelo
oceano da Poesia Regressaremos
juntos Às
fontes, Às
raízes, À
glória de Portugal. ROSALÍA (Em
homenagem à poetisa Rosalía de Castro, de Santiago de Compostela) Rosalía, Vestida
de negro, Caminha
pelo vale, Sombra
entre os pinos angulosos E
os gritos das aves Nas
avelaneiras. Coração
carregado de terrores secretos, Rosto
abatido,
Mãos trêmulas como ervas, No
prumo da perfeição. Passa
por bosques, Ribeiras, Atravessa
a tempestade, A
neblina espessa, Nuvem
ligeira Que
caminha. Ao
longe, Ouve
os sinos da igreja, Que
fazem chorar, Rezar
soluços, Lembra-se
de Tiago, O
pescador, O
apóstolo Passado
a fio de espada, A
tristeza come-lhe as entranhas. É
preciso chegar a Compostela, Ao
abrigo, Peregrina
que foge de si mesma E
se rebela. É
preciso aplacar a raiva, Depor
a foice De
quem faz justiça com as próprias mãos.
Amarfanha-se
o vestido, O
negror penetra a pele: Onde
a cantiga galega Ao
pé das fontes e arroios? Onde
os ramos de açucenas nos muros? Onde
os rosais floridos? Tudo
seca, Tudo
morre. Rosalía, Estrela
negra, Embrenhou-se Na
Via Láctea. CARTEIRO Lá
vem o carteiro Vestido
de azul e amarelo Sobre
a bicicleta Impulsionada
pelo vento, Há
nele algo do deus Mercúrio, Imagino
de repente Pequenas
asas em sua cabeça, A
túnica sobre o braço, A
bolsa cheia de mensagens. Vem,
carteiro, Artesão
de sonhos, Força
germinativa De
quem porta idéias, Ordens, Fortuna. Vem,
com tua carga preciosa, Arfa
meu coração Enquanto
espero que me does teus bens Em
forma de palavras, Letras E
promessas. Vem,
só tu sabes, Quão
grande é meu espírito de combate, Eu
que escrevo cartas, Cartas, Muitas cartas Que
voam Como
borboletas. Só
tu calculas minha audácia De
caminhar por estradas cheias de riscos E
atravessar mares de espumas. Como
tu, escuto atrás das portas, Ligo
antenas Pelas
vias do pensamento E
da comunicação. Vem,
carteiro, Companheiro, Despeja
sobre meu peito Um
outono de folhas Prensadas
da esperança. Vem,
carteiro, Elo
entre mim e o mundo, Prisioneira
solitária De
uma ilha escura. Vem,
carteiro, Vem
hoje, Amanhã, Sempre, Vem,
até o último dia, Quando,
exausta, Consumida
de amor, Conduzirás
minha alma até a região dos mortos Onde
conhecerei face a face Todos
os homens e anjos A
quem enviei cartas. ESCADARIA
DE JADE (Em
homenagem ao livro Escadaria
de Jade – Antologia de poesia chinesa – século XII - século XIII
– tradução de A. B. Mendes Cadaxa) Debrucei-me
sobre textos chineses: Poemas
finos Como
brotos de arroz E
melancólicos Era
como se estivesse às margens de um rio Coberto
de lótus, Recheado
de serpentes aquáticas E
tartarugas brancas; O
perfume que me envolvia Vinha
do sândalo E
das caneleiras; O
tom da tarde Era
o rosa de uma begônia. Comecei
a imaginar objetos de jade: Estatuetas, Cabos
de armas, Flautas, Pratos, Harpas E
uma escadaria, Uma
imensa escadaria, Subi, Vestida
num quimono brocado, Os
pés apertados em faixas, A
face de porcelana, Subi
lentamente
Até
alcançar o topo, A
paisagem verde-jade do vazio, Onde
assisti ao naufrágio De
tantas das minhas esperanças.
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